
– O sol mal raiou, e já se ouve o ronco dos motores. Pela manhã, homens e mulheres no Brasil acordam cedo, dirigindo por aplicativo – entregando comida, transportando passageiros, correndo contra o tempo. São histórias de luta que se repetem: João, 28 anos, pedreiro informal que pega “bicos” pra sustentar a família, mas vê os dias de obra rarearem; Maria, diarista de 45 anos, que limpa casas de luxo em Copacabana, sem carteira assinada, contando as horas pra voltar pra uma favela sem saneamento; Pedro, ex-motorista de ônibus, agora na informalidade, pedalando entregas sob chuva e sol. São rostos humanos, espremidos por um sistema que os ignora.
Essa realidade não para nas fronteiras. Imigrantes, como os haitianos em São Paulo ou os venezuelanos em Roraima, chegam com sonhos e encontram o mesmo ritmo brutal – sem registro, sem proteção, competindo por “bicos” com brasileiros na mesma situação. Nos Estados Unidos, trabalhadores informais, muitos latinos sem documentos, enfrentam jornadas exaustivas em fazendas ou entregas, sob o olhar indiferente de elites que falam inglês, mas pensam igual as elites dos países que partiram.
Na América Latina, o domínio das elites locais, aliado à violência urbana que se entranha nos narco-estados, reforça a impotência. De Bogotá a Buenos Aires, diaristas, pedreiros e motoristas de app vivem à mercê de governos corruptos que oferecem benefícios sociais como esmolas. As elites, sejam republicanas ou democratas nos EUA, ou as oligarquias latinas, falam línguas diferentes, mas compartilham o mesmo desdém. Seus discursos acadêmicos falam de um mundo irreal, enquanto o povo, jovem ou adulto, qualificado ou não, se vê fora do mercado formal. Jovens com expectativas altas enfrentam vidas medianas; adultos formados, diplomas empoeirados, vagam em busca de dignidade.
As redes sociais, como o X amplifica essas vozes, mas a solução parece um horizonte distante, obscurecido por burocracias sufocantes e criminalidade que corrói a esperança. É uma dor humana, um grito abafado de quem acorda com o sol pra sobreviver. Lamentável que tanto esforço seja tragado por sistemas falidos, onde o suor não encontra valor.
Talvez, nesse silêncio, uma faísca comece a brilhar – uma ideia que una essas lutas, vinda de quem ouve o povo, apontando um caminho ainda oculto.