
Hoje, 25 de julho, o ex-deputado norte-americano George Santos, filho de brasileiros, começa a cumprir sentença de sete anos em uma prisão federal condenado por crimes de fraude eletrônica e roubo agravado de identidade. Esse é o desfecho de uma trajetória marcada por mentiras, manipulações e um colapso político que expôs as vulnerabilidades do sistema eleitoral americano. Santos, que já foi uma promessa do Partido Republicano, agora é um símbolo de corrupção e oportunismo.
Vamos direto ao ponto: quem é George Santos, o que ele fez, e por que sua história é um alerta para a democracia?
George Anthony Devolder Santos, nascido em 1988 em Nova York, filho de imigrantes brasileiros, apresentou-se como a personificação do “sonho americano”. Eleito em 2022 para representar o 3º distrito congressional de Nova York, que inclui partes de Queens e Long Island, Santos conquistou um assento crucial para a estreita maioria republicana na Câmara dos Representantes.
Ele se vendeu como um empresário de sucesso, formado em universidades de prestígio, com experiência em Wall Street e uma história pessoal que incluía ser um “judeu americano” com avós que fugiram do Holocausto. Tudo isso era uma teia de mentiras. Santos, que possui dupla nacionalidade brasileira e americana, usou sua ascendência para construir uma narrativa cativante. Mas a verdade veio à tona semanas após sua eleição, graças a uma investigação do The New York Times.
Ele não frequentou Baruch College ou NYU, não trabalhou na Goldman Sachs ou na Citigroup, e sua suposta fortuna imobiliária era inexistente. Até sua alegada herança judaica foi desmascarada: Santos é católico e, em uma tentativa de defesa, disse que apenas se considerava “judeu-ish” (um trocadilho com “judeu”) por causa de supostas raízes familiares. Essas fabricações não apenas enganaram eleitores, mas abriram as portas para investigações criminais que culminaram em sua expulsão do Congresso em dezembro de 2023, tornando-o o sexto deputado na história dos EUA a sofrer tal punição.
Fraudes Eleitorais: O Modus Operandi de SantosVamos ser objetivos: Santos não apenas mentiu sobre quem era, mas orquestrou esquemas fraudulentos para financiar sua campanha e enriquecer pessoalmente. Aqui estão os principais crimes pelos quais ele foi condenado nos EUA, conforme detalhado em sua confissão de culpa em agosto de 2024:
- Fraude Eletrônica e Roubo de Identidade: Entre julho de 2020 e outubro de 2022, Santos roubou informações financeiras de doadores, usando seus cartões de crédito sem autorização para fazer cobranças que totalizaram dezenas de milhares de dólares. Esses fundos foram desviados para sua campanha, campanhas de outros candidatos e até para sua própria conta bancária. Para encobrir o esquema, ele falsificou relatórios à Comissão Eleitoral Federal (FEC), atribuindo doações a familiares e associados que nunca contribuíram.
- Lavagem de Dinheiro e Uso Indevido de Fundos: Santos usou contribuições de campanha para despesas pessoais, incluindo roupas de grife, pagamentos de cartão de crédito, um carro e até estadias em hotéis de luxo, como o Breakers em Palm Beach. Relatórios indicam que ele gastou US$ 40 mil em passagens aéreas e US$ 30 mil em hotéis, valores exorbitantes para um candidato novato.
- Fraude em Benefícios de Desemprego: Durante a pandemia, Santos solicitou e recebeu cerca de US$ 24 mil em benefícios de desemprego do estado de Nova York, apesar de estar empregado com um salário anual de US$ 120 mil em uma empresa de investimentos na Flórida.
- Falsificação de Documentos Financeiros: Santos mentiu em suas declarações financeiras à Câmara dos Representantes, inflando sua riqueza e omitindo ações judiciais e dívidas, incluindo despejos por falta de pagamento de aluguel.
Esses crimes, descritos pelo procurador Breon Peace como uma “montanha de mentiras, roubo e fraude”, resultaram em uma sentença de 87 meses de prisão, além de ordens de restituição de US$ 373.749,97 e confisco de US$ 205.002,97. Santos, que chorou ao ouvir sua sentença em abril de 2025, pediu clemência, alegando ser um homem “humilhado” e “castigado”. Mas a juíza Joanna Seybert não se convenceu, apontando a falta de remorso genuíno.
Acusações Criminais no Brasil: Um Passado que Volta à TonaAlém das condenações nos EUA, Santos enfrenta um processo criminal no Brasil, reaberto em 2023 após sua eleição chamar a atenção das autoridades. O caso, revelado pelo The New York Times e confirmado por fontes como a CNN e o The Washington Post, remonta a 2008, quando Santos, então com 19 anos, cometeu uma fraude em Niterói, no Rio de Janeiro.
Aqui estão os detalhes:
- Fraude com Cheques Roubados: Santos é acusado de usar um talão de cheques roubado, que pertencia a um homem para quem sua mãe trabalhava, para fazer compras no valor de cerca de US$ 700 (equivalente a R$ 1.300 na época) em uma loja de roupas em Niterói.
- Ele usou um nome falso e um documento de identidade com sua própria foto, mas com o nome do proprietário do talão. Em 2010, Santos confessou o crime à polícia, admitindo que roubou o talão e realizou as compras fraudulentas. Ele prometeu pagar a dívida, mas nunca o fez.
Investigação Suspensa e Reaberta: O caso foi suspenso em 2013 porque as autoridades brasileiras não conseguiram localizá-lo. Após sua eleição ao Congresso, sua localização tornou-se pública, e os promotores do Rio de Janeiro anunciaram a reabertura do processo. Eles planejam notificar Santos oficialmente por meio de uma carta rogatória enviada ao Departamento de Justiça dos EUA. Se condenado, ele pode enfrentar até cinco anos de prisão no Brasil, embora, dado o valor envolvido e a ausência de antecedentes criminais na época, a pena pode ser convertida em multa.
Bruno Simões, o ex-funcionário da loja lesado, descreveu Santos como um “mentiroso profissional” em entrevista à CNN. Simões, que teve que arcar com parte do prejuízo, disse que Santos usava seu charme para desarmar as pessoas e executar fraudes. “Ele é muito bem articulado, educado, gentil… Ele desarma as pessoas com essas habilidades para executar fraudes”, afirmou.
Um Alerta para a Política Global
O caso de George Santos não é apenas uma história de escândalo político; é uma lição sobre os perigos de narrativas fabricadas e a fragilidade da confiança pública. Nos EUA, Santos enganou eleitores com promessas falsas, manipulou o sistema eleitoral e usou a política como uma ferramenta de enriquecimento pessoal. No Brasil, suas ações reforçam a percepção de que a corrupção pode transcender fronteiras, especialmente quando alguém com dupla nacionalidade explora sistemas jurídicos e culturais distintos.
Sua expulsão do Congresso, com um voto esmagador de 311 a 114, foi um momento raro de consenso bipartidário, impulsionado por um relatório devastador do Comitê de Ética da Câmara, que detalhou “violações graves e generalizadas de financiamento de campanha”. Republicanos como Mike Lawler e democratas como Dan Goldman exigiram sua saída, enquanto o presidente da Câmara, Mike Johnson, hesitou, citando a necessidade de “devido processo”. Santos, por sua vez, chamou o relatório de “mancha política nojenta”.
Enquanto Santos começa sua pena em uma prisão federal, possivelmente um campo de segurança mínima no Nordeste dos EUA, ele deixa um legado de desconfiança. Suas tentativas de se reinventar — com um podcast intitulado “Pants on Fire” e vídeos personalizados no Cameo — mostram que ele ainda busca lucrar com sua notoriedade. Até sua esperança de um indulto presidencial, alimentada por seu apoio a Donald Trump, foi frustrada, com a Casa Branca se recusando a comentar qualquer pedido de clemência.
Para os brasileiros, a história de Santos é um lembrete de que a política, em qualquer país, exige vigilância. Um homem que confessou roubo em Niterói aos 19 anos escalou as fileiras da política americana com uma rede de mentiras, apenas para cair em desgraça. Sua dupla nacionalidade, embora não seja o cerne de seus crimes, adiciona uma camada de complexidade, mostrando como indivíduos podem navegar entre jurisdições para evitar responsabilidade. George Santos é mais do que um político caído; ele é um aviso. A democracia depende da verdade, e quando a confiança é quebrada, o custo é pago por todos nós.