
Boston, 30 de Julho de 2025 – A interseção de Melnea Cass Boulevard e Massachusetts Avenue, ficou conhecida como Cracolândia Mass and Cass ou Methadone Mile, o cenário lá é de desolação. Seringas espalhadas pelo asfalto, pessoas consumindo drogas a céu aberto, violência que se alastra como uma sombra para os bairros vizinhos, como o South End. É nesse contexto que moradores exigiram uma intervenção drástica: a presença da Guarda Nacional para conter o que chamam de “zona de guerra”. A prefeita de Boston, Michelle Wu (Democrata), porém, rejeitou a ideia com veemência.“Não é aceitável que as pessoas tenham de desviar de agulhas ou temer por sua segurança ao atravessar a Methadone Mile”, afirmou Wu, em tom sereno, durante uma coletiva após um evento na última segunda-feira, 28. Ainda assim, a líder da cidade descartou “qualquer possibilidade”, segundo ela, de uma “resposta militar” para a crise que se enraíza na interseção e transborda para as redondezas.
“Não acredito que nossa cidade precise ou deva receber uma mobilização militar”, declarou a prefeita, com uma convicção compassiva que, embora louvável em sua empatia pelos dependentes químicos, porem distante das angústias dos moradores, como se a compaixão se limitasse ao estado de autodestruição dos indivíduos, e não às pessoas que, em sua luta diária, enfrentam o caos imposto pela Cracolândia Mass and Cass.
A Methadone Mile não é apenas um cruzamento de ruas; é um microcosmo da crise de opioides que desafia Boston. Enquanto Wu anuncia a liberação de 200 mil dólares para ampliar a parceria com a Fundação Gavin, destinando recursos a leitos de recuperação e transporte para dependentes químicos, os moradores do South End questionam se tais medidas realmente chegam à raiz do problema. A iniciativa, embora bem-intencionada, parece refletir a mesma compaixão seletiva que prioriza a recuperação dos indivíduos em situação de dependência, mas deixa de lado o desespero de famílias que vivem com medo em suas próprias vizinhanças.

Para muitos, a promessa de leitos e transporte é apenas um paliativo diante da violência e da desordem que tomam conta das ruas. A prefeitura alega ter intensificado a segurança pública e os recursos na região, numa tentativa de enfrentar a magnitude do problema na Cracolândia Mass and Cass. No entanto, para os residentes do South End, essas ações são insuficientes, quase como uma gota d’água num oceano de descaso. Em uma recente reunião virtual, a comunidade expôs sua indignação: a presença policial é escassa, incapaz de conter a escalada de violência e o consumo desenfreado de drogas que invadem o bairro. “É uma zona de guerra”, desabafou um morador local, com a voz carregada da exaustão de quem enfrenta o caos como rotina.
Andrew Brand, co-presidente da Associação de Bairro da Worcester Square, foi categórico na reunião: “Queremos a Guarda Nacional”, disse, repetindo o clamor de uma comunidade que se sente abandonada pela administração municipal.
Em entrevista ao Boston Herald na terça-feira, 29, Brand suavizou o tom, mas não recuou na essência. “A Polícia de Boston admitiu que não tem recursos para atender às nossas demandas com a urgência necessária. Perguntei: será que precisamos da Polícia Estadual ou da Guarda Nacional para ajudar?”, relatou. Ele instou a prefeita Wu a dialogar com a governadora Maura Healey para mobilizar a Polícia Estadual ou, em última instância, a Guarda Nacional em funções civis, ou até buscar apoio de outros municípios.
A sugestão, porém, parece esbarrar na mesma convicção compassiva da prefeita, que, ao focar na recuperação dos dependentes, deixa os moradores do South End à mercê de um problema que não escolheram.
Na Methadone Mile, o drama humano se desenrola em praça pública, sob o olhar indiferente de uma cidade partida. A crueza dessa realidade, quase um segredo constrangedor, é varrida para as sombras, como se fosse um escândalo incompatível com a fachada “progressista e virtuosa” que Boston ostenta. Sim, essa contradição pulsa, viva e incômoda, nas ruas da Cracolândia Mass and Cass.
De um lado, a administração democrata com sua compaixão seletiva insiste em soluções que, embora humanitárias, parecem desconexas das demandas urgentes da população local. De outro, moradores clamam por segurança e dignidade, enquanto a interseção de Melnea Cass Boulevard e Massachusetts Avenue permanece como um símbolo de uma crise que exige mais do que boas intenções. A pergunta que fica dos moradores do South End é simples, mas cortante: “até quando, Michelle Wu a compaixão por uns significará o abandono de outros?”