
Boston, 06de Janeiro de 2026
Em meio ao rigor das políticas imigratórias nos Estados Unidos, especialmente durante a era de intensas operações do Serviço de Imigração e Aduanas (ICE), muitos imigrantes recorrem a práticas espirituais ancestrais para buscar proteção contra o que percebem como “o mal” – as batidas policiais, as deportações em massa e a incerteza legal. Essa fusão de religiosidade e misticismo não é apenas um refúgio emocional, mas uma estratégia de sobrevivência cultural que reflete o desespero de comunidades marginalizadas. Santos católicos oficiais, divindades folclóricas, rituais de origens africanas e até práticas em igrejas evangélicas ganham protagonismo, oferecendo um senso de esperança onde as instituições falham. Um destaque curioso nesse cenário é o culto a Santo Toribio Romo, conhecido como “el Padre Pollero” ou o “Santo Coyote”, protetor informal dos migrantes e dos traficantes de pessoas que operam na fronteira sul, simbolizando a interseção entre fé, perigo e travessia ilegal.
A onda de pânico espiritual surge em um contexto de repressão imigratória persistente, marcada por raids (Blitz) agressivos e o fechamento de canais legais de entrada. Apesar de desafios judiciais e declínio no apoio público às táticas duras, a administração Trump intensificou as deportações, deixando imigrantes em um limbo de medo constante. Nesse ambiente, a devoção a figuras divinas torna-se uma âncora. “Quando as pessoas sentem que não têm outro recurso senão o divino ou o sobrenatural, esses tipos de santos se tornam realmente importantes”, explica Andrew Chesnut, professor de Estudos Católicos na Virginia Commonwealth University. Ele destaca como a espiritualidade se mistura a uma revitalização cultural, ajudando os imigrantes a obter segurança em meio à imprevisibilidade governamental.
Nos abrigos para migrantes, paróquias latinas e até em protestos, imagens de santos protetores proliferam. São Judas Tadeu, o santo católico das causas perdidas, aparece em manifestações e diante de centros de detenção. Madre Cabrini, padroeira dos imigrantes, ilumina vigílias e cortes federais. Nossa Senhora de Guadalupe, a Mãe das Américas, surge em redes de resposta rápida e altares improvisados após varreduras imigratórias.
Mas o fascínio vai além do catolicismo oficial: santos folclóricos, não sancionados pela Igreja, ganham adeptos entre aqueles em situações desesperadoras. La Santa Muerte, a “Santa Morte” – uma figura esquelética semelhante à Ceifadeira –, é invocada para proteção contra prisões, aparecendo em painéis de carros, velas e murais. “Uma de suas principais funções é protetora de migrantes. A grande maioria dos devotos não são narcotraficantes, mas pessoas em situações desesperadas”, afirma Chesnut. Jesús Malverde, o “anjo dos pobres” associado ao Cartel de Sinaloa, também se transforma em amuleto para migrantes pobres.
O destaque intrigante é Santo Toribio Romo, um padre mexicano martirizado na década de 1920, que se tornou o patrono não oficial dos cruzadores de fronteira. Conhecido como o “Santo Coyote” – termo que alude aos “coyotes”, os traficantes que guiam imigrantes pela perigosa fronteira sul entre México e EUA –, ele é carregado em carteiras e colares por aqueles que arriscam a travessia. Sua história de perseguição e perseverança evoca as experiências dos migrantes, que o veem como um intercessor contra os perigos do deserto, das autoridades e dos próprios coyotes. Essa devoção reflete a ambiguidade da fronteira: um lugar de esperança e risco, onde a fé transcende o legal e o ilícito.
No sul da Flórida, onde diásporas de Cuba, Venezuela e Haiti se concentram, o misticismo ganha contornos afro-caribenhos. Imigrantes irregulares, afetados pela suspensão de processos imigratórios e pelo cancelamento de proteções temporárias, voltam-se para religiões como a santería yoruba, lucumí e palo mayombe. Andrés, um santero cubano de 33 anos em Miami, exemplifica essa prática. Antes de uma audiência de asilo em Orlando, ele consultou os orixás – espíritos divinos da tradição yoruba. Ofereceu animais a Xangô e preparou uma bolsa com grãos e açúcar para “limpar” o corpo, rezando para que “olhos maus não o vissem” – uma metáfora para a polícia e o ICE. “Saí vitorioso, graças a Deus”, conta Andrés, que entrou nos EUA pela fronteira em 2021 e vive com um documento I-220A, sem perspectiva de regularização.
Histórias como a de Andrés se multiplicam em botânicas, lojas de artigos religiosos em Hialeah, onde clientes buscam amuletos contra o “mau-olhado” da imigração. Yusney Trujillo, proprietário de uma botânica, observa que o medo supera preocupações com saúde ou amor: “As pessoas vêm em busca de proteção pela fé, para afastar a polícia da estrada ou evitar raids em fábricas”. Rituais incluem consultas com caracóis para adivinhação, banhos com plantas e oferendas personalizadas, guiadas por orishas como Eleguá, o mensageiro.
Em comunidades evangélicas, especialmente entre imigrantes brasileiros e latinos em igrejas neopentecostais, surge outra curiosidade: práticas que alguns críticos chamam de sincretismo, com venda de objetos “ungidos” – como óleos bentos, sal grosso para descarrego, lenços ou águas consagradas – prometendo livramento das “garras do ICE”, sessões intensas de batalha espiritual contra demônios vistos como causadores de problemas migratórios, e atos proféticos para garantir proteção divina imediata.
Ernesto Pichardo, babalawo cubano e defensor da liberdade religiosa, enfatiza o caráter ativo dessas crenças: “Esta não é uma religião passiva. É sobre ação. Você consulta os santos e os mortos, e eles dão um plano”. Ele critica a inércia de grupos religiosos e políticos diante da crise, que afeta especialmente cubanos, outrora privilegiados por políticas como “pés secos/pés molhados”. Agora, milhares com I-220A enfrentam insegurança total, recorrendo à fé como ferramenta de resistência.
Essa devoção pública e privada surge enquanto a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA condena as deportações, defendendo políticas humanitárias baseadas na dignidade humana. No entanto, oposições crescentes não alteram as políticas: “Se você vem ao nosso país e quebra nossas leis, nós o encontraremos, o prenderemos e o deportaremos”, afirmou uma autoridade do Departamento de Segurança Interna.
Em última análise, o misticismo dos imigrantes nos EUA é um testemunho de resiliência cultural. Santos, orixás e práticas evangélicas não apenas protegem contra “o mal” da deportação, mas reafirmam identidades em um sistema punitivo. Como diz Chesnut, eles funcionam como linhas de vida emocionais, restaurando segurança onde a confiança nas instituições desmoronou. Em um país de imigrantes, essa espiritualidade lembra que a fé pode ser o último bastião contra o medo.


