
Boston, 29 de Janeiro de 2026
Em julho de 2024, a família equatoriana de Adrián Conejo Arias, sua esposa Pamela e os filhos — incluindo Liam, então com cerca de 4 anos, e um irmão de 13 — deixou o Equador em busca de uma nova vida nos Estados Unidos. Em dezembro de 2024, eles se apresentaram legalmente na fronteira sul do Texas, no porto de entrada de Brownsville, utilizando o aplicativo CBP One (ferramenta do governo Biden para agendar apresentações e solicitar asilo). O caso de asilo foi registrado no tribunal de imigração em 17 de dezembro de 2024, e a família recebeu liberação condicional (parole), permitindo que se estabelecessem em Minnesota. Lá, Liam frequentou a pré-escola normalmente por mais de um ano, construindo rotina, amigos e uma aparência de estabilidade.
Os pais tomaram uma decisão adulta de alto risco: migrar para um país onde o processo de asilo é incerto, dependente de provas específicas de perseguição (não apenas instabilidade geral no Equador), e vulnerável a mudanças de administração. Eles sabiam — ou deveriam saber — que políticas imigratórias variam drasticamente entre governos: o que era tolerado sob Biden poderia ser priorizado para remoção sob Trump. E assim aconteceu. Em 20 de janeiro de 2026, durante uma operação anti-imigração em Minnesota, agentes do ICE detiveram o pai (classificado como “illegal alien” pelo Departamento de Segurança Interna — DHS), e Liam acabou levado junto. Transferidos para o South Texas Family Residential Center em Dilley, Texas, eles permanecem detidos desde então.
Liam, agora com 5 anos, não escolheu nada disso. Ele foi levado para um ambiente novo, ganhou escola e rotina por um tempo, mas agora paga o preço mais alto: relatos de 28 de janeiro de 2026, confirmados pela mãe Pamela, pela superintendente da escola Zena Stenvik e pelo deputado Joaquín Castro (que visitou o centro em Dilley naquele dia), descrevem o menino como deprimido, letárgico, dormindo excessivamente, com febre, dores de estômago, vômitos e sem apetite. Fotos e vídeos postados por Castro mostram Liam abatido no colo do pai, destacando o impacto psicológico e físico da detenção prolongada em um centro familiar.
A responsabilidade primária pelo bem-estar da criança é dos pais. Se Liam está mal agora, parte significativa disso vem da escolha inicial de expô-lo a essa instabilidade — não só da detenção em si (que estudos associam a traumas duradouros em menores), mas de todo o caminho que levou até lá: a migração, o asilo pendente e a vulnerabilidade a enforcement mais rígido. Os adultos calcularam riscos e benefícios para si; a criança, sem voz, carrega as consequências.
Casos semelhantes abundam, revelando um padrão doloroso. Durante a política de “tolerância zero” do primeiro mandato de Trump (2018), mais de 5 mil crianças foram separadas de seus pais na fronteira, muitas delas em idade pré-escolar, sofrendo separações abruptas que deixaram marcas profundas: ansiedade crônica, depressão, transtorno de estresse pós-traumático (PTSD) e regressão comportamental.
Relatórios da American Immigration Council e do Harvard FXB Center documentam que crianças detidas em centros familiares (como Karnes ou Dilley, entre 2018-2020) enfrentaram cuidados médicos inadequados, desnutrição resultando em danos físicos e psicológicos prolongados. Estudos recentes (como o da University of California Riverside, 2025) mostram que crianças em famílias de status misto — mesmo cidadãs americanas — apresentam risco dobrado de ansiedade na vida adulta após exposição a detenções ou deportações parentais.
Um exemplo clínico recorrente é o de adolescentes latinos que, após raids ou detenções familiares, exibem ideação suicida, agressividade e uso de álcool (estudo de 2020 em Atlanta). Outro caso composto, “Ana” (17 anos, de família salvadorenha), ilustra o terror constante: pânico, insônia, automutilação e desengajamento escolar por medo de separação familiar após uma raid do ICE.
O sofrimento real da criança — confirmado por visitas de congressistas, mãe e escola — virou ferramenta poderosa. Posts virais, protestos (dispersados com gás lacrimogêneo em 28 de janeiro de 2026 diante do centro de Dilley) e pressão midiática geram apelos por liberação imediata. Isso pode ser genuíno, mas também pode ser percebido como estratégia para ganhar vantagens no processo: evitar deportação rápida, fortalecer o asilo pendente ou gerar simpatia pública que influencie o tribunal.
Democratas, como o deputado Joaquín Castro (que visitou o centro em 28 de janeiro de 2026 e postou sobre a “preocupação com a saúde mental” de Liam), usam o caso para atacar as políticas do Trump, ampliando a narrativa de “crueldade” em operações migratórias. Do outro lado, o DHS e o ICE defendem que aplicam a lei contra quem entrou e permaneceu sem status definitivo, priorizando remoções.
No fundo, a migração é um cálculo de risco/benefício feito por adultos. Quando dá errado — como na detenção de 20 de janeiro de 2026 e na transferência para Dilley —, a criança vira o símbolo mais vulnerável. O apelo emocional surge inevitavelmente, porque é difícil ignorar um menino de 5 anos abatido. Mas questionar “quem o colocou nessa posição?” é legítimo e necessário: pais protegem filhos priorizando sua estabilidade, não arriscando tudo em um sistema imprevisível.
Em 27 de janeiro de 2026, um juiz federal (Fred Biery, Texas) bloqueou temporariamente a deportação ou transferência da dupla enquanto o litígio (habeas corpus) corre, mas o caso de asilo segue pendente. O desfecho depende do tribunal — e, mais uma vez, Liam paga o preço da incerteza criada por decisões alheias.


