Tiago Prado
Há uma ironia deliciosa: no mesmo dia em que Washington fecha as portas para imigrantes de 75 nações, Wall Street celebra um acordo multibilionário baseado no sucesso de um deles, que chegou indocumentado.
A contradição é tão flagrante, tão economicamente analfabeta, que serve como uma acusação contundente a uma classe política divorciada da realidade. Enquanto o Departamento de Estado tuitava sobre imigrantes que “extraem riqueza”, a gigante de private equity The Carlyle Group orquestrava uma injeção de capital de US$ 1,3 bilhão na Trucordia. O propósito? Adquirir, entre outros, a Breezy Seguros, corretora fundada pelo brasileiro Tiago Prado. Ele chegou aos EUA aos 14 anos, sem documentos ou inglês. Sua história não é o conto comovente do Sonho Americano.
É, francamente, um estudo de caso sobre falha sistêmica e ineficiência de mercado. O fato de ter sido necessário um adolescente goiano indocumentado para identificar e atender ao crescente mercado de seguros para latinos não é um testemunho da engenhosidade americana, mas um holofote sobre a negligência crônica de uma indústria estabelecida.
Que o Sr. Prado tenha precisado navegar por um labirinto de subempregos para se formar na Tufts University revela um sistema que desperdiça capital humano com imprudência. Private equity não investe US$ 1,3 bilhão por caridade. A jogada do Carlyle é uma aposta fria e calculada em um segmento que é gerador de impostos e consumidor — o exato oposto da narrativa parasitária vendida por políticos. Como o próprio Sr. Prado observou secamente: “O mercado não investe bilhões por caridade. Se o Carlyle colocou capital na operação, é porque o imigrante é um cliente lucrativo.” Este é o cerne da questão. Enquanto Washington se engaja em uma crueldade performática, suspendendo vistos como o EB-2 para profissionais qualificados, o mercado envia um sinal claro: capital humano é o ativo supremo.
O argumento do governo de que deve proteger o país dos custos sociais da imigração desmorona diante de um investimento de nove dígitos que depende dessa mesma imigração. O timing eleva isso de debate a farsa política.
A aquisição ocorreu em novembro de 2025; a suspensão dos vistos, em janeiro de 2026. Nesse intervalo, o valor criado por um ex-imigrante indocumentado foi validado por uma das instituições financeiras mais sofisticadas do mundo, enquanto o governo se preparava para bloquear o caminho de inúmeros outros. É preciso ser cético sobre as implicações a longo prazo.
A consolidação de mercados de nicho por private equity frequentemente leva à extração e homogeneização. Mas essa é uma preocupação secundária. A questão principal é o custo de oportunidade assombroso da xenofobia.
A pergunta não é se o Sonho Americano está vivo, mas se o governo americano está ativamente tentando matá-lo. Para cada Tiago Prado que atravessa o desafio, quantos são barrados na porta? Wall Street, em sua busca incessante por lucro, forneceu inadvertidamente a resposta: bilhões.


