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A tensão interna no governo Trump sobre a execução do programa de deportações em massa veio à tona com força nesta semana, após a divulgação de uma entrevista exclusiva do “border czar” Tom Homan — realizada em junho de 2025 para o livro Undue Process: The Inside Story of Trump’s Mass Deportation Program, de Julia Ainsley (NBC News) — que só agora foi liberada. Nela, Homan alertava que operações de imigração precisavam ser focadas e priorizadas em criminosos para “manter a fé do povo americano” e preservar o apoio público à agenda de Trump.
Homan, veterano do ICE sob Obama e nos dois mandatos de Trump, enfatizou que, embora qualquer imigrante ilegal possa ser preso e deportado, a prioridade deveria recair sobre aqueles com crimes adicionais graves. “Acho que a vasta maioria dos americanos pensa que imigrantes ilegais criminosos precisam sair. Se nos mantivermos nessa priorização, acho que mantemos o apoio do povo americano”, disse ele em 16 de junho de 2025 — exatamente quando as primeiras grandes batidas em Los Angeles, lideradas pelo comandante da Border Patrol Greg Bovino, começavam a gerar protestos intensos.
Na época, Bovino — promovido de chefe do setor de El Centro (Califórnia) para coordenar operações em Los Angeles — adotou uma abordagem de varredura ampla: agentes realizavam prisões em massa baseadas em locais de moradia e trabalho, como o Fashion District, estacionamentos de Home Depot (na “Operation Trojan Horse”, com agentes saindo de caminhões alugados para deter trabalhadores diaristas) e outros pontos. Essas ações, que incluíam vídeos promocionais com trilha sonora pesada, provocaram cinco semanas de protestos, levando Trump a chamar a Guarda Nacional e os Fuzileiros Navais.
Desde então, as táticas se espalharam para Chicago, Charlotte, Nova Orleans e, especialmente, Minneapolis — onde a operação “Metro Surge” virou o epicentro da crise. Em janeiro de 2026, agentes federais mataram duas cidadãs americanas: Renee Good (7 de janeiro, baleada após supostamente tentar fugir em seu veículo) e Alex Pretti (24 de janeiro, enfermeiro de UTI do VA, morto por agentes da CBP durante protestos). Esses incidentes — com vídeos de testemunhas contradizendo narrativas oficiais — inflamaram protestos nacionais, ações judiciais e críticas até de republicanos.

Bovino, que pessoalmente usou gás lacrimogêneo contra manifestantes em Chicago e defendia prisões “colaterais” amplas, foi removido do cargo em Minneapolis e substituído por Homan. O border czar imediatamente reduziu em 700 o contingente federal na cidade (de 3.000 para 2.300), citando maior cooperação com autoridades locais para localizar imigrantes com histórico criminal. “Isso é aplicação da lei inteligente, não menos aplicação da lei”, disse Homan em entrevistas recentes, enfatizando foco em “ameaças à segurança pública”.
Dados públicos mostram que, nos primeiros nove meses da administração Trump, cerca de um terço das prisões do ICE foram de imigrantes sem condenações criminais (excluindo as da Border Patrol). Uma pesquisa New York Times/Siena pós-tiroteio de Good (mas pré-Pretti) indicou que 61% dos americanos achavam que as táticas do ICE “foram longe demais”. Polls mais recentes mostram queda no apoio ao programa de deportações em massa, de 52% em novembro de 2025 para 46% em janeiro de 2026.
Internamente, há divisões claras: Homan e outros líderes defendem o modelo de “prisões colaterais” (encontrar e deter quem surge durante buscas por criminosos), mas rejeitam varreduras indiscriminadas para inflar números. Fontes anônimas do DHS, advogados de imigração e comunicações internas obtidas pela NBC News apontam que a secretária de Segurança Interna Kristi Noem e seu assessor próximo Corey Lewandowski (ex-campanha de Trump) pressionaram por volume alto de prisões, influenciando Bovino. Um e-mail de outubro de 2025 mostra Bovino frustrado por ter sido limitado a operações “alvo-específicas” por duas semanas em Chicago antes de retomar ações amplas.

O DHS nega divergências: “Como o border czar Homan e a secretária Noem disseram inúmeras vezes, o ICE realiza operações direcionadas para remover ameaças à segurança pública — qualquer indivíduo ilegal no país está na mesa. Há apenas uma página: a do presidente. Todos estão na mesma página“, afirmou um porta-voz.
Trump, em entrevista à NBC na quarta-feira (5 de fevereiro de 2026), admitiu que “talvez possamos usar um toque um pouco mais suave” na aplicação. Homan reforçou que priorizar criminosos não significa imunidade para outros: “Se você está ilegalmente no país, não está fora da mesa. Se te encontrarmos enquanto estamos procurando, você será preso”.
A revelação da entrevista de Homan sugere que suas previsões estão se concretizando: o apoio público ao programa depende de foco em criminosos violentos, não em ações que afetem inocentes ou cidadãos. Com protestos continuando, ações judiciais em curso e pressão republicana crescente, a administração enfrenta o dilema de manter a promessa de “deportações em massa” sem perder a “fé do povo americano” que Homan tanto alertou. O futuro das operações dependerá se o governo ouvirá o próprio border czar ou persistirá no modelo de volume que já gerou tragédias e backlash.


