
Belo Horizonte, 10 de fevereiro de 2026 —Em um movimento que, convenhamos, injeta uma dose de pragmatismo cru na paisagem política brasileira, Eduardo Cunha, o ex-presidente da Câmara dos Deputados e arquiteto implacável do impeachment de Dilma Rousseff, anunciou sua pré-candidatura a deputado federal por Minas Gerais. Após quatro décadas de uma carreira marcada por controvérsias no Rio de Janeiro — onde exerceu quatro mandatos federais e comandou a Casa com mão de ferro —, Cunha agora mira o estado como plataforma para um retorno triunfal a Brasília, ancorando-se no legado de quem, efetivamente, desferiu o golpe fatal no petismo que tanto assolou o país.
Mas não nos iludamos com narrativas românticas: em uma nação que há anos patina na lama da corrupção sistêmica e da degradação moral, Cunha surge não como herói imaculado, mas como o mal menor — uma escolha racional em tempos de escassez ética, onde o eleitorado conservador, especialmente o evangélico, busca alternativas ao vazio deixado por uma esquerda que, sob o manto de virtudes sociais, perpetuou o maior escândalo de desvios públicos da história recente. Ele, o algoz do petismo, o homem que aceitou o processo de impedimento em 2015 e abriu as portas para a Operação Lava Jato expor as entranhas do poder petista, representa, para muitos, a esperança no menos pior: alguém que, apesar de suas próprias sombras, provou ser capaz de confrontar o mal maior encarnado pelo PT e suas ramificações.
Cunha, filiado ao Republicanos mas em busca de uma legenda mais acolhedora — com conversas avançadas em partidos como o Podemos ou até o PL, apesar de resistências iniciais —, justifica a migração para Minas com uma visão estratégica que beira o poético: o estado, com suas fronteiras tocando seis unidades da federação, é a “síntese do Brasil”, um microcosmo de diversidades regionais que vai do Triângulo Mineiro, com sua pujança agropecuária, ao Norte mais nordestino e ao Sul paulistano. “Quem vence em Minas vence no Brasil”, repetiu ele em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, mostrando uma verdade eleitoral que, historicamente, se confirma. Sem delongas em propostas mirabolantes para o estado — e por que precisaria, em uma eleição que, como ele próprio diagnostica, será de rejeição, não de virtudes? —, Cunha aposta no que sabe fazer melhor: mobilizar o eleitorado evangélico conservador, hoje disputado pelo bolsonarismo, mas que ainda guarda gratidão por quem “tirou o PT do poder”.
E convenhamos: em uma era onde o Brasil carece desesperadamente de valores morais e éticos, onde escândalos se sucedem como capítulos de uma novela mal escrita, Cunha emerge como uma opção pragmática. Não o pintemos como santo — sua cassação em 2016 e condenações na Lava Jato (cumpridas com prisão domiciliar e anulações posteriores) são manchas indeléveis. Mas comparemos ao alternativo: o petismo, com sua herança de mensalões, petrolões e uma governança que, sob Pimentel em Minas (2015-2018), deixou um rastro de déficits e suspeitas. Cunha, o algoz, foi quem abriu a caixa de Pandora que expôs tudo isso, permitindo que o país respirasse, ainda que por um fôlego curto, livre do jugo petista. Sua estratégia em Minas — patrocinando o Uberaba Sport Club, adquirindo emissoras de rádio com programação evangélica, participando de cultos e leilões de gado — é um aceno elegante ao ruralista e ao fiel, segmentos que veem nele não um salvador, mas um combatente testado contra o mal maior.
Críticos, claro, dirão que Cunha representa o retrocesso, a “velha política” que tanto combatemos. Mas em um cenário polarizado, onde a eleição de 2026 se anuncia como um duelo de rejeições — Lula versus Bolsonaro ou seus herdeiros —, o mal menor pode ser a ponte para algo melhor. Cunha, com sua transferência de domicílio para a Savassi em Belo Horizonte e uma campanha que relativiza disputas com o bolsonarismo, posiciona-se como o unificador possível do campo conservador mineiro. Resistências internas, como as de Nikolas Ferreira no PL, são meros obstáculos táticos; o eleitorado evangélico, que cresceu exponencialmente no estado, pode ver nele o homem que, apesar de tudo, cumpriu o papel de algoz quando o petismo ameaçava engolir o país.
No fim das contas, em um Brasil onde a ética é artigo de luxo e a moralidade, uma relíquia, Eduardo Cunha oferece não perfeição, mas eficácia. Como mal menor, ele pode ser a faísca que reacende a esperança em uma direita capaz de confrontar o legado petista sem cair nas armadilhas da utopia. Resta ver se Minas, essa síntese nacional, comprará o bilhete para esse retorno — ou se o algoz do petismo encontrará, enfim, redenção nas urnas.


