Olá, meus caros leitores, hoje quero conversar com vocês sobre um tipo de cansaço que não aparece nas fotos, não recebe elogios por produtividade e quase nunca é validado socialmente. É o cansaço da mente que não desliga. É aquele esgotamento silencioso que muitas vezes carregamos enquanto continuamos funcionando, trabalhando, cuidando, resolvendo e sorrindo. Vivemos em uma geração cansada.
Não apenas fisicamente — mas mentalmente. Há pessoas que seguem cumprindo suas responsabilidades com excelência, mantendo compromissos, sustentando relações e entregando resultados… mas por dentro estão emocionalmente drenadas. É o que a psicologia clínica tem chamado de cansaço emocional silencioso. Diferente do cansaço físico, que melhora com algumas horas de sono, o esgotamento emocional não se resolve apenas deitando a cabeça no travesseiro.
Ele nasce da sobrecarga mental, da preocupação constante, da sensação de que é preciso antecipar problemas, prever falhas e manter tudo sob controle. Ele nasce do excesso de responsabilidade somado à dificuldade de pausar.
Na prática clínica, escutamos com frequência frases como: “Eu deito, mas minha cabeça continua funcionando.” “Eu não consigo parar de pensar no que preciso resolver.” “Mesmo quando está tudo bem, eu sinto que algo vai dar errado.” Esses relatos costumam estar associados à ansiedade de alta funcionalidade — quando a pessoa mantém desempenho e organização, mas vive internamente em estado constante de alerta. Segundo a Associação Americana de Psicologia (APA), o estresse prolongado mantém o sistema nervoso simpático ativado, como se estivéssemos permanentemente diante de uma ameaça. O corpo permanece em modo de sobrevivência. E ninguém consegue viver assim por muito tempo sem pagar um preço.
O cérebro humano não foi projetado para permanecer em alerta contínuo.
Quando isso acontece, ocorre a chamada sobrecarga cognitiva. Aaron Beck, fundador da Terapia Cognitivo-Comportamental, explicou que pensamentos automáticos distorcidos aumentam a percepção de perigo, mesmo quando não há ameaça real.
A mente passa a operar como um radar hiperativo, buscando riscos onde muitas vezes não existem. E aqui está um ponto importante: muitas vezes o cansaço não vem do que fazemos, mas do que pensamos repetidamente. Pensamentos de responsabilidade excessiva, perfeccionismo, medo de falhar ou necessidade constante de controle criam tensão interna permanente. A pessoa vive antecipando cenários, resolvendo problemas antes que eles aconteçam, planejando cada detalhe. Ela raramente descansa emocionalmente.
Na clínica, observamos frequentemente indivíduos que acumulam múltiplos papéis — mãe, profissional, cuidadora, líder, filha, esposa — e que têm dificuldade em delegar ou dizer “não”. O problema não é a força. O problema é acreditar que não se pode parar. Donald Winnicott falava sobre o “falso self”, uma adaptação que desenvolvemos para atender expectativas externas.
Muitas vezes, a pessoa forte se torna tão competente nesse papel que se desconecta das próprias necessidades emocionais. Continua funcionando, mas já não sabe o que sente. E quando as emoções não encontram espaço para serem reconhecidas, o corpo começa a falar.
A psicossomática nos mostra que emoções não processadas frequentemente se manifestam fisicamente. Dores crônicas, fadiga persistente, alterações no sono, tensão muscular e problemas gastrointestinais podem estar ligados ao estresse acumulado. Como afirma o médico Gabor Maté: “Quando não escutamos o corpo sussurrar, ele começa a gritar.”
O cansaço emocional invisível é perigoso porque ele não interrompe imediatamente a funcionalidade. A pessoa continua produzindo. Continua cuidando. Continua ajudando. Mas está drenada.
No tratamento clínico, trabalhamos três pilares principais para restaurar equilíbrio e emocional:
- Reconhecimento emocional. Aprender a identificar e nomear emoções com precisão é um passo essencial. Estudos em neurociência mostram que quando conseguimos colocar palavras nos sentimentos, há redução da ativação da amígdala — área cerebral relacionada ao medo — e maior ativação do córtex pré-frontal, responsável pela regulação emocional.
Em termos simples: quando nomeamos o que sentimos, diminuímos a intensidade da experiência. Muitas pessoas estão cansadas não porque sentem demais, mas porque sentem e não reconhecem.
- Reestruturação cognitiva aqui entramos no campo da Terapia Cognitivo-Comportamental. Questionar pensamentos automáticos como “eu preciso dar conta de tudo”, “se eu errar, será um desastre”, ou “ninguém pode falhar comigo” é fundamental.
A mente cria narrativas rígidas que mantêm o estado de alerta constante. Ao flexibilizar esses pensamentos, diminuímos a sensação de ameaça permanente. Nem tudo é urgente. Nem tudo depende exclusivamente de você.
- Treino de autorregulação e limites saudáveis Respiração diafragmática, pausas conscientes, organização realista de tarefas e, principalmente, aprender a estabelecer limites são práticas terapêuticas essenciais.
A mente não desliga porque não recebe permissão para descansar. Muitas vezes, não é a agenda que está cheia — é a ausência de limites internos.
Até a próxima Semana


