
Por J. C. Junot, JSNews – Boston, 16 de fevereiro de 2026
Em um ciclo eleitoral ainda embrionário, mas já carregado de tensões pós-2024, as pesquisas de intenção de voto para a nomeação democrata em 2028 pintam um quadro de polarização crescente. Enquetes realizadas neste ano – janeiro e fevereiro de 2026 –, três nomes emergem com clareza: a ex-vice-presidente Kamala Harris, o governador da Califórnia Gavin Newsom e a deputada nova-iorquina Alexandria Ocasio-Cortez (AOC). Esses dados, compilados por agregadores como RealClearPolling e Race to the White House, sugerem não apenas uma disputa acirrada, mas uma escalada rumo ao revanchismo – uma tentativa de reconquista ideológica que reflete o trauma da derrota democrata para Donald Trump. Enquanto isso, do lado republicano, reina o silêncio estratégico, com a chapa JD Vance-Marco Rubio dada como certa por insiders e sondagens iniciais, representando uma continuidade trumpista sem alardes.
Os números de 2026 são eloquentes. Em uma média ponderada do Race to the White House, Harris lidera com cerca de 27,5%, seguida de perto por Newsom em 22,7%, e AOC consolidando o terceiro lugar com 9%. Mas é nos detalhes das pesquisas individuais que o tom radical se revela. Na enquete da Harvard-Harris, realizada entre 24 e 27 de janeiro, Harris aparece com 39%, Newsom com 30% e AOC com 12% – um salto para a progressista que, em crosstabs, domina entre jovens e eleitores de esquerda.
Já a Rasmussen Reports, de 28 de janeiro a 1º de fevereiro, dá Harris 34%, Newsom 20% e AOC 7%, reforçando a ex-vice como âncora moderada, mas com Newsom ganhando tração como “lutador” anti-Trump.
A Big Data Poll (22 a 25 de janeiro) mostra Harris em 31%, Newsom 22% e AOC 6%, enquanto a Echelon Insights (23 a 26 de janeiro) inverte o topo: Newsom 27%, Harris 21% e AOC 9% – um indício de momentum para o governador californiano. A Focaldata, com release recente, corrobora: Harris 39%, Newsom 21% e AOC 10%. E a YouGov, de 1º a 16 de janeiro, fecha o ciclo com Harris 20%, Newsom 17% e AOC 9%.
Essa tríade não é aleatória. Harris, com sua experiência nacional e apelo entre minorias, representa a “continuidade responsável” – mas carrega o fardo da campanha de 2024, vista por muitos como desconectada das angústias econômicas. Newsom, por sua vez, posiciona-se como o “resistente implacável”, com ataques virais contra Trump e políticas californianas que, apesar de criticadas por conservadores (altos impostos, crise habitacional), energizam a base democrata. E AOC? Sua ascensão para o terceiro lugar, consistentemente acima de 7-12%, sinaliza o crescimento do radicalismo: uma ala progressista que clama por reformas drásticas em clima, saúde universal e desigualdade, ecoando o “Green New Deal” como bandeira revanchista contra o establishment que, na visão deles, falhou em barrar Trump.
Aqui reside a escalada ao revanchismo. Essas pesquisas de 2026 indicam uma radicalização democrata: AOC, outrora marginalizada como “extrema”, agora flerta com double digits, puxando o partido para a esquerda em um momento de introspecção pós-derrota. É uma caminhada rumo à revanche ideológica – não apenas contra os republicanos, mas contra as próprias moderações internas que, para muitos ativistas, custaram a Casa Branca em 2024. Newsom, com sua retórica combativa, amplifica isso, enquanto Harris tenta equilibrar, mas acaba pressionada pela base jovem que favorece AOC.
Do outro lado do espectro, os republicanos mantêm um silêncio ensurdecedor. Sem o frenesi democrata, as sondagens apontam para uma sucessão trumpista consolidada: o vice-presidente JD Vance surge como favorito absoluto, com médias de 45% no RealClearPolling, liderando em enquetes como Rasmussen (62%) e Echelon (42%). Marco Rubio, secretário de Estado, aparece em segundo ou terceiro (7-9%), mas comentaristas políticos afirmam que o próprio Rubio acredita que Vance é “inevitável”, e que uma chapa Vance-Rubio é apoaiada pelo próprio Trump como “combinação fantástica”. É uma estratégia de continuidade: Vance como herdeiro do MAGA, Rubio como ponte ao establishment hispânico, sem necessidade de barulho precoce.
Essa assimetria revela muito sobre o momento político americano. Os democratas, feridos pela derrota, escalam o revanchismo em pesquisas que premiam polarizadores como AOC e Newsom. Os republicanos, vitoriosos, apostam no silêncio e na sucessão ordenada. Resta saber se essa radicalização democrata trará unidade ou fratura – e se, em 2028, o revanchismo se traduzirá em votos ou em mais uma lição de pragmatismo eleitoral. Por ora, as enquetes de 2026 servem de alerta: a polarização não arrefece; ela se aprofunda.


