Por: Junot, Boston, 18 de março de 2026 –
Donald Trump decidiu transformar a Lei de Salvaguarda da Elegibilidade do Eleitor Americano, a famosa SAVE America Act, em um teste de força pessoal. E o resultado até agora é o oposto do que ele esperava: em vez de consolidar o domínio sobre o Partido Republicano, o ex-presidente está revelando, com clareza brutal, que já não manda sozinho.
O núcleo da proposta – exigir prova documental de cidadania para registrar voto – tem apoio amplo até entre republicanos. Mas Trump não se contentou. Na última hora, exigiu acrescentar uma restrição radical: acabar com o voto por correio sem justificativa (o chamado “no-excuse absentee voting”), salvo em casos excepcionais como doença grave, deficiência ou serviço militar. Foi o suficiente para acender um incêndio dentro do próprio partido.
Fontes republicanas no Senado não escondem o desconforto. Um senador, falando sob anonimato, resumiu com uma palavra que raramente se usa em público contra Trump: “problemático”. Em estados como Montana e Utah, onde 60% a 70% dos eleitores votam por correio e o próprio partido incentivou essa prática por anos, a ideia de proibir o mecanismo é vista como um tiro no pé. Republicanos de regiões rurais sabem que forçar eleitores conservadores a viajar dezenas ou centenas de quilômetros para votar é receita certa de abstenção – exatamente o que o partido não pode permitir às vésperas das eleições de meio de mandato.
O resultado prático já está visível. Os senadores Thom Tillis (Carolina do Norte) e Lisa Murkowski (Alasca) declararam abertamente que votarão contra o prosseguimento do projeto. Mitch McConnell e John Curtis estão na lista de “em dúvida”. Steve Daines, de Montana, levantou preocupação privada. Até o próprio Tillis, co-patrocinador original do texto, admitiu que a parte sobre voto por correio “precisa de trabalho” e que o projeto, do jeito que Trump quer, não tem “caminho para o sucesso”.
A matemática do Senado é implacável. Mesmo que todos os 53 republicanos votassem juntos – o que claramente não vai acontecer –, seriam necessários 60 votos para superar o filibuster democrata. Chuck Schumer já avisou: “Nem um único democrata apoiará”. E o líder republicano John Thune deixou claro que não pretende forçar um filibuster falante nem mudar as regras do jogo. Ou seja, o projeto está travado.
Uma derrota na votação de prosseguimento ou no debate prolongado não seria apenas um revés legislativo. Seria, acima de tudo, um sinal político devastador: a demonstração concreta de que Trump perdeu o controle efetivo sobre o Partido Republicano. Senadores eleitos em estados onde o voto por correio é popular e consolidado – muitos deles com base eleitoral própria forte – estão dispostos a desafiar o ex-presidente para proteger seus próprios eleitores. É o tipo de rachadura interna que, em política americana, raramente fica sem consequência.
Trump postou suas exigências no Truth Social em 9 de março e mandou o senador Eric Schmitt apresentar as emendas. Mas o que era para ser um ato de liderança está se transformando em evidência de fragilidade. O próprio McConnell, segundo fontes, “não gosta nada do projeto”. E vários republicanos moderados ou pragmáticos veem na insistência de Trump uma tentativa de impor uma agenda federalista que contraria o tradicional conservadorismo estadualista do partido.
Em resumo: o que começou como uma demonstração de poder de Trump está se revelando exatamente o contrário. Se a SAVE Act cair – como tudo indica que cairá –, o recado será cristalino para a base, para os doadores e para os próprios republicanos: o partido já não é mais uma extensão da vontade de Donald Trump. Ele ainda tem influência. Mas, pela primeira vez em anos, essa influência mostrou limites claros dentro da legenda que ele próprio ajudou a reconstruir.
E, em Washington, limites visíveis costumam ser o começo do fim de uma era.


