BRASÍLIA – Enquanto o preço absoluto da energia elétrica no Brasil fica próximo da média global, o consumidor brasileiro sofre o maior fardo do planeta quando se mede o que realmente importa: o quanto da renda familiar vai para pagar a conta de luz. Um relatório da OCDE divulgado em 26 de março de 2026 revela que as famílias brasileiras destinam 11,8% de seus gastos totais recorrentes à energia — o maior percentual entre as grandes economias analisadas pela organização. É quase o dobro do registrado nos Estados Unidos (6,3%) e bem acima da média europeia.
O dado expõe uma realidade cruel: o Brasil, dono de uma das matrizes energéticas mais limpas e baratas do mundo na geração (hidrelétrica, eólica e solar), entrega ao consumidor final a conta mais pesada do planeta. E a responsabilidade por esse absurdo recai diretamente sobre as políticas do governo federal e dos estados.
Preço por kWh não explica o drama – o governo, sim
A tarifa residencial média no Brasil gira em torno de R$ 0,91 por kWh (cerca de US$ 0,17), valor similar à média americana e abaixo de países como Alemanha (US$ 0,36–0,40) ou Itália. Mesmo assim, o brasileiro comum gasta proporcionalmente muito mais. Para uma família de renda média (cerca de R$ 3.000 a R$ 4.000 mensais), a conta de luz pode consumir até 12% ou mais do orçamento. Nas famílias mais pobres, o peso chega a ser devastador: estudos do Inesc indicam que, em lares de baixa renda, a energia representa até 15,8% das despesas com habitação.
O principal culpado? Os encargos setoriais inflados pelo governo. Só a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) vai consumir R$ 52,7 bilhões em 2026 — R$ 47,8 bilhões repassados diretamente para as tarifas dos consumidores. São subsídios cruzados, tarifa social, irrigação e outros programas sociais que o governo impõe ao setor elétrico, mas que, na prática, são pagos pelo bolso de quem menos pode. A Aneel projeta reajuste médio de 8% nas contas em 2026 — mais que o dobro da inflação oficial (3,9%).
Impostos elevados (ICMS estadual, PIS/Cofins) e perdas técnicas e não técnicas (furtos e ineficiência na rede) completam o quadro. O resultado é uma tarifa que, apesar da energia limpa e barata na usina, chega ao consumidor como uma das mais onerosas do mundo em termos de impacto real.
Comparação internacional expõe o fracasso brasileiro
- Estados Unidos (média nacional): 6,3% da renda. Em Massachusetts, estado com uma das tarifas mais caras do país (US$ 0,31/kWh), o peso fica em 4-5%.
- Alemanha: 9,0% — mesmo com a cara transição energética.
- Itália: 10,9% — segundo colocado.
- França: cerca de 8,7%.
O Brasil lidera disparado. Enquanto governos de países ricos conseguem equilibrar ambições ambientais com tarifas suportáveis, o governo brasileiro transformou a energia em instrumento de política social sem contrapartida de eficiência. O custo é repassado integralmente para o consumidor, especialmente o de classe média e baixa, que subsidia programas como a Tarifa Social sem ver redução estrutural nas contas.
Famílias pagam a conta do populismo energético
Especialistas do setor e entidades como Abradee e Abrace há anos alertam: sem reforma profunda nos encargos, na regulação da Aneel e no controle de perdas, o problema só tende a piorar. Em 2026, com a CDE crescendo e o risco de bandeiras tarifárias mais caras no período seco, o aperto no orçamento familiar deve se intensificar.
O governo federal, que tanto celebra a “matriz limpa” do Brasil, omite o outro lado: uma regulação que transforma vantagem competitiva em desvantagem econômica. Enquanto famílias cortam gastos com alimentação, saúde e educação para pagar a luz, o Tesouro usa o setor elétrico como caixa de subsídios sem transparência nem limite.
O relatório da OCDE não deixa margem para dúvida: o Brasil tem, hoje, a conta de luz mais cara do mundo — não na usina, mas no bolso do brasileiro. E essa conta tem nome e sobrenome: políticas públicas mal desenhadas, falta de coragem para reformas e prioridade ao assistencialismo em detrimento da eficiência e da competitividade. O consumidor brasileiro, mais uma vez, é quem paga a fatura.


