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WASHINGTON – A agência federal de imigração dos Estados Unidos (ICE) deteve mais de 800 pessoas entre o início do segundo mandato de Donald Trump e fevereiro de 2026, com base em informações fornecidas pela Transportation Security Administration (TSA), responsável pela segurança nos aeroportos americanos. Os números, revelados por dados internos da ICE obtidos com exclusividade pela Reuters, superam em muito o que se sabia até agora.
A TSA repassou à ICE registros de mais de 31 mil viajantes para possível ação de enforcement migratório. Embora não seja possível precisar quantas prisões ocorreram dentro dos terminais, os alertas da agência eram especialmente úteis para identificar o momento em que a pessoa pretendia embarcar.
Tanto a ICE quanto a TSA integram o Departamento de Segurança Interna (DHS). Historicamente, as duas agências compartilhavam dados ligados a ameaças à segurança nacional. A partir do ano passado, porém, o intercâmbio passou a incluir prisões de rotina no âmbito da política de deportações em massa do governo Trump.
O programa que gerou os dados é o Secure Flight, criado em 2007 pela TSA para verificar informações de passageiros e cruzar com listas de vigilância do governo. Na concepção original, tratava-se de uma ferramenta antiterrorismo, e não de um instrumento para localizar infratores de leis de imigração.
O DHS não respondeu a questionamentos sobre o repasse de dados de passageiros da TSA para a ICE. Em nota, limitou-se a dizer que, sob a gestão Trump, a TSA “busca soluções que melhorem a resiliência, a segurança e a eficiência de todo o sistema”.
Disputa orçamentária e presença da ICE nos aeroportos
Aeroportos e a aplicação da lei migratória estão no centro de uma acirrada disputa partidária desde meados de fevereiro. Democratas no Congresso se recusaram a aprovar recursos extras para o endurecimento da política imigratória sem reformas que limitassem táticas consideradas agressivas.
O impasse bloqueou a aprovação do orçamento do DHS e deixou agentes da TSA sem receber pelo menos dois contracheques integrais. Diante de faltas ao trabalho motivadas pelo atraso salarial, Trump determinou, em março, o envio de oficiais da ICE para mais de uma dezena de aeroportos, com a missão de reforçar a segurança.
Democratas criticaram a medida e exigiram a retirada imediata dos agentes. Na semana passada, mais de 40 deputados democratas enviaram carta ao secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, alertando que a presença de oficiais da ICE “causará confusão e medo” entre os viajantes.
Casos que geraram repercussão negativa
Diversos episódios de detenções em aeroportos provocaram forte reação pública. Em novembro, agentes da ICE prenderam um estudante universitário que viajava de Boston para o Texas para celebrar o Dia de Ação de Graças. Um dia antes do início da operação de reforço, uma mãe foi detida em lágrimas no Aeroporto Internacional de San Francisco. O DHS defendeu as duas ações, afirmando que as pessoas estavam sob ordem final de deportação.
Três advogados de imigração consultados pela Reuters relataram conhecer casos semelhantes. Um deles envolveu um casal irlandês que vivia legalmente nos Estados Unidos havia mais de 20 anos. Detidos na frente dos filhos ao tentar embarcar de férias da Flórida para Nova York, os pais — que tinham pedidos de residência permanente em andamento — foram deportados e deixaram os dois filhos pequenos, de 7 e 10 anos, aos cuidados de irmãos adultos no país.
Em outro caso, uma mulher chinesa com ordem final de deportação, mas que buscava residência permanente, foi detida pela ICE no aeroporto de Atlanta enquanto se dirigia a Filadélfia.


