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A influenciadora brasileira Débora Rocha viralizou nas redes sociais neste fim de semana após publicar um vídeo no Instagram relatando o susto com uma conta hospitalar nos Estados Unidos. Durante uma viagem em família, ela foi mordida por um cachorro (um poodle) e precisou buscar atendimento de emergência em Orlando, na Flórida.
No vídeo, Débora mostra a cicatriz no braço e desabafa: “Como uma mordida de um cachorro nos Estados Unidos agora me deixou quase endividada, com uma dívida de 17 mil dólares em um hospital de Orlando.”
Segundo ela, a fatura totalizou US$ 17 mil (cerca de R$ 84 mil, dependendo da cotação). O valor incluiu aproximadamente US$ 2,5 mil por dose da vacina antirrábica (duas doses aplicadas no hospital), US$ 5 mil pela consulta e o restante pelo tratamento com imunoglobulina humana antirrábica (HRIG), o soro caro usado na profilaxia pós-exposição à raiva.
O desfecho do caso
Débora não precisou pagar do próprio bolso. Ela havia contratado um seguro-viagem, que cobriu integralmente as despesas. As doses restantes da vacina ela completou gratuitamente no SUS ao retornar ao Brasil.
Emocionada, ela comentou:
“Quando ela virou para mim e falou 17 mil dólares, eu fiquei muito triste pensando nas pessoas que não têm plano de saúde lá.”
O que a história não conta por completo
O caso ganhou repercussão rápida na imprensa brasileira, sendo usado como exemplo para criticar o sistema de saúde americano e exaltar o SUS como “a melhor coisa do mundo”. No entanto, a realidade é mais nuançada.
Nos Estados Unidos, quem possui Medicaid (para baixa renda) ou Medicare (para idosos e deficientes) teria o mesmo tratamento — vacina antirrábica + imunoglobulina — coberto quase integralmente, pagando zero ou muito pouco do bolso. Desde 2023, a lei federal obriga que o Medicaid cubra vacinas recomendadas pelo CDC sem custo compartilhado em casos de exposição. O Medicare Parte B também cobre explicitamente a profilaxia pós-exposição quando medicamente necessária.
Ou seja: um americano com esses programas públicos não seria negado e não receberia uma conta de US$ 17 mil. O problema real nos EUA é para quem não tem nenhum tipo de cobertura — aí sim os custos são brutais.
SUS: universal na teoria, desafiador na prática
No Brasil, o SUS garante acesso universal e gratuito, inclusive para turistas em casos de emergência (e Débora completou o esquema vacinal aqui sem custo). Isso é uma conquista importante.
Porém, quem conhece o dia a dia do SUS sabe que ele funciona muito melhor na teoria do que na prática para casos mais complexos:
- Filas longas para consultas com especialistas;
- Demora de meses ou anos para cirurgias eletivas e exames;
- Falta intermitente de medicamentos e insumos em várias regiões.
Para uma mordida simples com risco de raiva, o SUS costuma resolver bem. Para doenças graves ou tratamentos que exigem rapidez e tecnologia, muitos pacientes enfrentam dificuldades reais.
Diferença cultural
A cultura americana parte do princípio de que “não existe almoço grátis”. O sistema é baseado em seguros privados (muitos via emprego), com redes públicas seletivas (Medicaid e Medicare). Isso gera inovação e rapidez para quem tem cobertura, mas deixa desprotegidos quem não tem.
No Brasil, a visão é de direito universal, custeado por impostos. Ambas as abordagens têm vantagens e falhas graves.
Conclusão: O susto de Débora Rocha é real e expõe o alto custo da saúde sem seguro nos EUA. Mas usar o caso para dizer que “o SUS é perfeito e o sistema americano é um horror” é uma simplificação. Nenhum dos dois é o melhor do mundo. Um é desigual, o outro é lento e sobrecarregado. O ideal seria extrair o que cada um tem de bom: acesso universal + eficiência e recursos.
A mordida de um cachorro serviu mais para reacender um debate antigo do que para revelar uma verdade absoluta.


