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A FIFA age com rigor quando um país emergente mistura política e esporte, mas adota postura passiva quando o país-sede é uma superpotência. Essa percepção de duplo padrão ganhou força com a Copa do Mundo de 2026, que começou nesta quinta-feira (11).
Em março de 2023, a Indonésia perdeu a sede da Copa do Mundo Sub-20 após o governador de Bali recusar-se a receber a seleção de Israel. O veto foi explícito: ausência de relações diplomáticas, apoio histórico à causa palestina e posicionamento contra o que consideravam “colonialismo”. Apesar de o presidente Joko Widodo ter tentado separar esporte de política e garantir segurança a todas as equipes, a FIFA decidiu rapidamente: “devido às circunstâncias atuais”, removeu o país como anfitrião e transferiu o torneio para a Argentina. A entidade reforçou o princípio da universalidade do futebol — todos os classificados devem poder competir.
Três anos depois, o cenário é diferente, mas as críticas reaparecem. Na Copa de 2026, autoridades americanas negaram entrada ou vistos a árbitros, staff técnico e dirigentes de várias seleções. Casos mais notórios:
- O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan (eleito o melhor da África em 2025) foi deportado após 11 horas de interrogatório, apesar de ter visto válido e credencial da FIFA. Motivo alegado: “preocupações de vetting” de segurança.
- A seleção do Irã teve jogadores aprovados, mas mais de 14 membros da comissão técnica e diretoria (incluindo o presidente da federação) foram barrados. A equipe montou base no México e faz “pulos” diários para os jogos nos EUA.
Em ambos os episódios, o país-sede impôs obstáculos à participação plena por razões externas ao esporte. A diferença está na natureza: na Indonésia foi veto político declarado contra um país específico; nos EUA trata-se de aplicação de política migratória e de segurança nacional, que afeta vários países de maioria muçulmana ou com histórico de tensões.
A reação da FIFA, porém, foi marcadamente distinta. No caso indonésio, a entidade agiu com rapidez e punição. No caso americano, limitou-se a declarações protocolares: “A FIFA não interfere em processos migratórios do país-sede. O governo anfitrião decide quem entra no país”. Até o momento, a entidade não emitiu nenhuma nota de protesto formal contra as restrições americanas, nem ameaçou qualquer medida. O presidente Gianni Infantino limitou-se a dizer que a FIFA “não é rei do mundo” e que tenta “encontrar soluções” dentro das limitações.
Diferenças que importam
- Poder relativo: Indonésia é uma nação em desenvolvimento sem grande influência na FIFA. Os EUA são superpotência, co-anfitriã e principal mercado comercial do futebol.
- Natureza da restrição: Um foi veto seletivo e ideológico. O outro é filtro amplo de imigração, enquadrado como questão de segurança nacional.
- Impacto: A Indonésia perdeu o evento inteiro. Os EUA mantêm a Copa, com ajustes logísticos (como base mexicana do Irã).
Analistas e federações afetadas veem hipocrisia: a FIFA defende com veemência a universalidade quando o desafiante é fraco, mas aceita concessões quando o anfitrião é forte. A entidade argumenta que não pode sobrepor-se à soberania de um governo, especialmente dos EUA.
Seja duplo padrão explícito ou realismo geopolítico, o fato é que a Copa 2026 começa com questionamentos sobre até onde o esporte consegue ficar realmente acima da política. A bola rola, mas as controvérsias fora de campo já marcaram o torneio antes mesmo do apito inicial.


