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HARLINGEN (Texas) — A administração do presidente Donald Trump intensificou o volume de processos nos tribunais de imigração e reduziu drasticamente o prazo de notificação das audiências, na tentativa de reduzir um acumulado de décadas. O resultado, segundo dados recentes, é um aumento histórico no número de imigrantes que deixam de comparecer às sessões e recebem imediatamente ordens de deportação, enquanto o sistema tenta acompanhar a demanda.
De acordo com reportagem da Associated Press (AP) publicada no final de julho de 2026 e assinada por Mayes-Osterman, com colaboração de Elliot Spagat, dezenas e, frequentemente, centenas de casos de imigrantes são atribuídos diariamente a um único juiz em tribunais de todo o país. Essas sessões, chamadas de “mega master hearings”, registraram forte crescimento neste ano. Só em junho foram realizadas mais de 1.300 dessas audiências, quase o triplo do mesmo mês do ano anterior, conforme análise da organização sem fins lucrativos Mobile Pathways, que monitora dados dos tribunais de imigração.
Ao mesmo tempo, o prazo concedido para preparação dos processos complexos caiu de cerca de seis meses para, em muitos casos, pouco mais de um mês. Com isso, as taxas de ausência dobraram: de aproximadamente 20% em janeiro de 2025 para 40% em junho deste ano, segundo a mesma organização. As ordens de deportação acompanharam a tendência, passando de cerca de 33 mil em janeiro de 2025 para cerca de 79 mil em junho. Uma vez emitida a ordem, o pedido de asilo é, na maioria das vezes, considerado “abandonado”. A taxa nacional de casos considerados abandonados está quase cinco vezes acima da média histórica desde 2009; em Nova York e Chicago, chega a ser cerca de seis vezes superior.
“A combinação de prazos encurtados e blocos de audiências lotados é um calendário desenhado para que as pessoas não tenham seus casos ouvidos. Os dados mostram que pedidos válidos são encerrados antes de serem julgados”, afirmou Bartlomiej Skorupa, diretor de operações da Mobile Pathways, em declaração à AP.
Tribunais sob pressão
Em Harlingen, no Texas, dias de “mega” audiências — definidas como aquelas com mais de 50 casos por juiz — obrigam imigrantes, familiares e advogados a esperar por mais de uma hora do lado de fora, sob calor intenso, até que o lobby consiga receber o próximo grupo. Em uma sessão recente, a juíza Delia Gonzalez tinha cerca de 90 casos na pauta. Mais de 20 pessoas não compareceram, e mesmo assim ela ficou sem tempo para ouvir todos, reagendando alguns que haviam esperado mais de oito horas. A maioria das audiências durou menos de cinco minutos. Pedidos de mais prazo, inclusive de imigrantes que alegavam ter sido enganados por advogados inescrupulosos ou que precisavam reunir documentos adicionais, foram negados.
No mesmo dia, em West Valley City, no Utah, o juiz Brock Taylor tinha 159 casos. Até o meio-dia, ele já havia citado dezenas de nomes de pessoas do México, Colômbia, Peru e Venezuela que não compareceram, determinando a remoção de cada uma e declarando que não haveria direito a recurso, após afirmar que todas haviam sido devidamente notificadas.
Em Chicago, o advogado Peter Meinecke, do Resurrection Project, relatou o caso de um cliente que recebeu ordem de deportação por não ter conseguido comparecer a uma audiência em Seattle, após um acidente de veículo que lhe fratura as duas pernas e o deixou em cadeira de rodas. Advogados do National Immigrant Justice Center também registraram situações em que imigrantes receberam ordens de remoção mesmo estando no interior do prédio do tribunal, mas desorientados quanto ao local da sessão.
“Há um limite real para quantos casos um juiz consegue ouvir com qualquer cuidado em uma manhã. Quando se amontoa tantas audiências em uma única pauta, você está percorrendo uma lista, não realizando um julgamento”, afirmou a ex-juíza de imigração Elizabeth Young.
Redução do acumulado e críticas
A estratégia é defendida por quem apoia regras mais rigorosas de imigração. “Não há credibilidade em um sistema que nunca chega ao fim”, disse Andrew Arthur, pesquisador do Center for Immigration Studies, organização conservadora. Ele reconhece, no entanto, o risco de sobrecarregar os juízes: “Você não quer colocar tantos casos a ponto de os magistrados se esgotarem ou de haver perigo de negar o devido processo legal a alguém”.
O escritório do Departamento de Justiça responsável pelos tribunais de imigração informou, em nota, que os juízes estão ajustando as agendas para resolver os processos com mais rapidez, garantindo, ao mesmo tempo, que todos sejam tratados de forma justa e conforme a lei. A declaração ressalta que atrasos prejudicam imigrantes com pedidos válidos e que o interesse público é atendido quando o governo deporta quem não tem base legal para permanecer.
O acumulado de processos, que cresceu significativamente durante a administração anterior, registrou queda pela primeira vez em pelo menos dez anos. O número de casos pendentes perante o Executive Office for Immigration Review caiu de 3,7 milhões para 3,5 milhões no ano fiscal de 2025 e continuou diminuindo neste ano.
Do lado dos advogados de defesa, o volume também se intensificou. Jaime Diez, advogado veterano em Brownsville (Texas), chegou a ter quase 20 casos convocados em um único dia — cerca de dez vezes o ritmo anterior. “O devido processo legal está sendo jogado pela janela. É muito preocupante, não sei quanto tempo isso vai durar”, declarou.
Katie Fleming, diretora do Acacia Center for Justice, alertou: “Isso é uma receita para o desastre, porque mais pessoas serão ordenadas a deixar o país à revelia mesmo tendo um caso realmente válido”.


