José Soares Leite
Deus, no seu soberano propósito eterno, profetizou que da semente da mulher (Eva) enviaria o Messias (Gn 3.15). Isto veio a acontecer quatro mil anos depois, na plenitude dos tempos, com o nascimento de Jesus (Lc 2.8-18; Gl 4.4), no ano 5 a.C. Ainda no livro de Gênesis 14.18, diz que Melquisedeque, rei de Salém, era sacerdote do Deus Altíssimo. Esse personagem é, por interpretação bíblica, descrito com características semelhantes a Cristo nos seguintes aspectos: sem biografia, sem genealogia. Sobre ele disse Deus que era rei de justiça e depois rei de Salém, que é rei de paz (Hb 7.2) — qualidades estas que são próprias de Cristo (Is 9.6; Hb 1; 1Co 1.30; Fp 3.9). Ele também trouxe pão e vinho para Abraão, que simbolizam o sacrifício vicário que Jesus fez na cruz, efetuado por toda a humanidade, conforme foi predito pelo profeta Isaías em Is 53.4-5 (vide Mt 8.17; Hb 9.28; 1Pe 2.24).
Está escrito, ainda no Salmo 110.4, que Davi profetizou, mil anos antes do nascimento de Jesus, que o Messias seria “sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. Como podemos observar em outro texto bíblico que diz: “Como também diz: ‘Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque’” (Hb 5.6). Esta comparação se deve ao seguinte fato: “Onde Jesus, nosso precursor, entrou por nós (no Tabernáculo celestial), feito eternamente Sumo Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 6.20). Portanto, é importante frisar que, apesar de a ordem sacerdotal de Melquisedeque ter sido profetizada antes — cerca de 24 séculos da outra ordem sacerdotal arônica, estabelecida segundo a Lei que Deus deu a Moisés —, esta foi dada especificamente para Israel, através dos filhos da tribo de Levi (Ex 28.1-3; Lv 8.1-30; Hb 7.5), mil e seiscentos anos antes da vinda de Jesus. Esse sacerdócio levítico, exercido no Tabernáculo, serviu apenas como sombra do celestial (Hb 5.10; 6.20; 8.3-5; 9.1); porque, se ele fosse irrepreensível, não necessitaria do segundo (Hb 8.7), que está firmado eternamente em um novo concerto e confirmado em uma nova e melhor promessa, através de Cristo (Rm 8.34; Hb 8.6-8). Por todas estas razões, a ordem sacerdotal de Melquisedeque é o verdadeiro tipo de Cristo.
Quanto a Abraão ter dado os dízimos de todos os despojos a Melquisedeque, significa dizer ser ele realmente um representante legítimo de Cristo, como diz o texto de Hb 7.4,6-7: “Considerai, pois, quão grande era este (Melquisedeque), a quem até o patriarca Abraão deu os dízimos dos despojos… E abençoou o que tinha as promessas (Abraão). Ora, sem contradição alguma, o menor é abençoado pelo maior”. A razão disso é o fato de o sacerdócio levítico ser imperfeito e exercido por homens pecadores (Hb 7.11,27-28). Em vista disso, só o sacerdócio perfeito e justo de Melquisedeque poderia representar o sacerdócio de Cristo (Hb 7.14-17). Esse personagem bíblico, Melquisedeque, constituiu-se um mistério bíblico, mas, como diz Deuteronômio 29.29: “As coisas encobertas são para o Senhor, nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para nossos filhos”.
Quanto a Abraão, por sua vez, apesar de ser um gentio — isto é, pecador como os demais seres humanos —, pela graça foi escolhido para, através dele, se formar o povo eleito de Deus e, por meio de sua descendência genealógica, viesse aquele que no Éden Deus prometeu: o Messias (Gn 3.15). Desta forma, Abraão se tornou pai da nação hebraica e de todos os crentes que, pela fé, creem em Jesus, que veio de sua descendência (Gl 3.29). Quando Abraão foi chamado por Deus, a quem primeiro foi anunciado o evangelho (Gl 3.8), ele creu incondicionalmente, aceitou a ordem divina e obedeceu; isto lhe foi imputado por justiça (Gn 15.6; Gl 3.6). A partir de então, ele passou a ser visto como o pai da fé, e os que são da fé são filhos de Abraão (Gl 3.7-8). Assim, tendo as Escrituras previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios (Gl 3.8), na promessa que Deus fez a Abraão de nele serem benditas todas as famílias da terra (Gn 12.3). Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua posteridade em Cristo (Gl 3.16).
José Soares Leite é Pastor e Bacharel em Teologia, professor de ensino sistemático de estudos Bíblicos como Professor de Escola Dominical e Faculdade de ensino Teológia em Boston


