JUNOT
O governo americano insiste: o ICE está focando em criminosos. A frase se repete em comunicados oficiais, entrevistas e redes sociais. “Priorizamos quem ameaça a segurança pública.” Soa bem. É o tipo de argumento que desarma críticas e dá cobertura política.
Só que os números e os casos concretos contam outra história — especialmente nos aeroportos.
Desde meados de 2026, agentes do ICE, muitas vezes à paisana, passaram a abordar passageiros em balcões de check-in e portões de embarque de pelo menos 15 aeroportos americanos. O alvo principal não é quem tem condenação por crime violento. É quem está com o visto vencido. Ponto.
Não importa se a pessoa tem pedido de ajuste de status em andamento, autorização de trabalho válida emitida pelo próprio governo, casamento com cidadão americano ou pedido de asilo ativo. Visto expirado basta. Os agentes usam dados fornecidos pela TSA para localizar essas pessoas antes do embarque. A mensagem do Departamento de Segurança Interna é direta: estrangeiros irregulares não devem voar — a menos que seja para sair do país.
Os exemplos são reveladores. Uma ex-au pair equatoriana com autorização de trabalho, detida no jetway de um voo em Denver. Um engenheiro aguardando renovação de visto. Recém-casados com americanos. Uma ugandesa em cadeira de rodas com pedido de asilo. Um australiano que havia ultrapassado o prazo do visto. Um empresário brasileiro com processo correndo na imigração. Nenhum deles encaixa no perfil de “criminoso perigoso” que o discurso oficial vende.
Advogados de imigração, alguns com quase quatro décadas de experiência, dizem que nunca viram nada parecido. A orientação que davam antes — “pode viajar se tiver documentos” — virou o oposto: se está em processo de regularização, evite o aeroporto. O TSA vai dedurar o passageiro.
Julho de 2026 registrou o maior número de prisões da história do ICE. Parte significativa dessas detenções ocorre exatamente nesse novo front: aeroportos. E o volume de pessoas sem antecedentes criminais dentro desse total é alto o suficiente para tornar a narrativa oficial, no mínimo, incompleta.
Não se trata de negar que o ICE prenda criminosos. Prende — e ninguém questiona a legitimidade de retirar das ruas quem efetivamente representa uma ameaça à sociedade. A questão é outra: o crescente descompasso entre o discurso oficial e a realidade das operações. Quando as detenções alcançam também imigrantes sem antecedentes criminais e com processos administrativos legítimos ou outras pendências e insistir que a agência atua exclusivamente contra criminosos deixa de ser uma descrição dos fatos. É uma narrativa construída para justificar uma realidade mais ampla.
A contradição está à vista de quem quiser ver. Nos portões de embarque, o discurso encontra a realidade. E a realidade, neste caso, é mais ampla e menos seletiva do que a frase de efeito sugere.


