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Uma análise da Newsweek baseada em pesquisas recentes mostra que o eleitorado americano está disposto a endossar certas propostas isoladas defendidas pelos Socialistas Democráticos da América (DSA). O mesmo eleitorado, no entanto, continua rejeitando com clareza o rótulo socialista e as medidas mais radicais dessa agenda. Os números expõem, mais uma vez, o abismo entre o apelo superficial de algumas políticas e a realidade histórica da utopia socialista.
A reportagem da Newsweek examinou cinco pontos da plataforma do DSA. Em três deles — saúde universal, aumento de impostos sobre bilionários e corporações, e reconhecimento de um Estado palestino — há maioria ou apoio relevante, inclusive entre independentes. A pesquisa Reuters/Ipsos (julho-agosto de 2026) registrou 60% de independentes a favor de cobertura de saúde governamental e 64% a favor de taxar mais os ricos. O apoio a um Estado palestino chegou a 57% (Gallup).
Esses números, porém, não significam adesão ao socialismo. Significam apenas que o eleitor médio aceita redistribuição limitada e críticas pontuais à política externa. Quando as propostas se tornam mais radicais, o apoio desaba.
A abolição do ICE divide o país (cerca de 50% a favor na Economist/YouGov). Já a ideia de “defund the police” ou abolir a polícia é rejeitada de forma esmagadora: apenas cerca de 15% apoiam cortes drásticos ou extinção das forças policiais. O próprio rótulo “socialista democrático” continua tóxico. Entre independentes, mais pessoas disseram estar menos propensas a votar em um candidato socialista do que em um candidato MAGA.
A diferença entre política e utopia
Aqui reside o ponto central. Apoiar “Medicare for All” ou “taxar os bilionários” não é o mesmo que defender a propriedade coletiva dos meios de produção, o fim do lucro ou o planejamento central da economia. O DSA não se limita às propostas que polidamente apresentam nas pesquisas. Seu horizonte ideológico inclui a superação do capitalismo — a mesma utopia que, onde quer que tenha sido aplicada de forma consistente, produziu escassez, repressão e atraso.
A história oferece um padrão difícil de ignorar. União Soviética, China de Mao, Cuba, Coreia do Norte, Camboja de Pol Pot e Venezuela sob o chavismo são exemplos de regimes que, ao tentar implementar o socialismo, produziram pobreza generalizada, restrição das liberdades e, em diferentes momentos, fome. A igualdade prometida acabou se manifestando, sobretudo, na precariedade compartilhada.
O contraste aparece na trajetória de China e Vietnã, onde avanços econômicos mais expressivos só se tornaram possíveis depois que esses países abandonaram parte dos princípios centrais do modelo socialista e passaram a admitir propriedade privada, mecanismos de mercado, preços determinados pela oferta e pela demanda e a busca pelo lucro.
Os falsos exemplos nórdicos
Os defensores da utopia costumam apontar Suécia, Dinamarca e Finlândia como prova de que “o socialismo funciona”. É um erro deliberado. Esses países são economias capitalistas de mercado com Estado de bem-estar generoso. Mantêm propriedade privada, empresas competitivas globalmente e integração profunda ao capitalismo internacional. Não por acaso, ocupam posições de destaque em inovação: Suécia está em 2º lugar no Global Innovation Index 2025, Finlândia em 7º e Dinamarca em 9º. Quando a Suécia tentou ir mais longe na direção socialista, nos anos 1970 e 1980, o desempenho econômico deteriorou e o modelo foi corrigido.
Imigração e a cultura do auxílio
A imigração de gente vinda de países assistencialistas também entra nessa conta — mas sem romantismo. Há dois grupos distintos. O primeiro é o dos que fugiram de verdadeiros experimentos socialistas: cubanos, venezuelanos, nicaraguenses, vietnamitas. Esses, em regra, detestam a palavra “socialismo”. Sabem o que ela significou na prática e muitos se moveram para a direita nas últimas eleições.
O segundo grupo é outro nicho. Parte dos imigrantes latino-americanos e de outras regiões chega aos Estados Unidos já acostumada a viver sob a lógica do auxílio estatal, como no Brasil. No país de origem, o governo aparece como provedor natural de benefícios. Essa mentalidade não se dissolve na alfândega. Em bairros densamente imigrantes de grandes cidades, esse público inclina-se com mais facilidade para candidatos que prometem expansão de programas sociais. Não se trata de conversão ideológica profunda. Trata-se de continuidade: o Estado, para estes, continua sendo visto como a fonte principal de solução e distribuição de recursos.
Entre os americanos, o apoio a saúde universal e a impostos mais altos sobre os ricos já existia. Mas convém olhar com frieza o que alimenta parte desse apoio. Em boa medida, trata-se de inveja do sucesso alheio disfarçada de virtude moral. A frustração com custos e desigualdade é real. O salto para a solução “que o governo resolva taxando quem tem mais” é, com frequência, o atalho emocional de quem não quer encarar a própria responsabilidade ou a complexidade do sistema.
O que as pesquisas realmente dizem
O eleitor americano, segundo os dados, quer mais acesso à saúde e está disposto a cobrar mais dos mais ricos. Não quer abolir a polícia ou acabar com o controle migratório nem entregar o comando da economia a planejadores centrais. Muito menos abraça a utopia que historicamente transformou sociedades em prisões econômicas.
O socialismo continua sendo o que sempre foi: uma promessa atraente de igualdade que, na prática, entrega escassez, autoritarismo e atraso. As pesquisas mostram que o eleitorado americano, mesmo quando simpatiza com algumas ideias progressistas, ainda distingue com clareza entre política pontual e a velha e fracassada utopia.


