Por: Edel Holz
Era uma vez… Gislaine
Ela era de Criciúma e veio para a América porque conheceu Bartolomeu na internet. Ele deu um jeito de trazê-la de avião, em classe executiva, com visto e tudo mais. Bartolomeu era bem mais velho que ela, mas ainda um bonitão: corpão, sem barriga, cabelos grisalhos, charmoso. Estava se sentindo sozinho e, claro, queria uma novinha para fazê-lo feliz na cama, na mesa e no banho.
Gislaine era loirinha, baixinha, bonitinha, de olhos bem azuis. Mal chegou e já começou a dar trabalho: não podia comer nada que não fosse orgânico. Molho de tomate, pizza, sanduíche e batata frita, nem pensar. Tinha um problema tão atrapalhado no estômago que nem médico conseguia dar nome à doença. Para mim era psicológico. Frescura mesmo.
Bartolomeu pensou que ia “tirar a barriga da miséria” com a menina de 20 anos, mas ela disse que era virgem e só daria seu mel depois do casamento. Ele fugia de casamento como o diabo da cruz. Mas, para sair da seca, o que custava casar? Ela concordou, mas queria véu, grinalda, flor de laranjeira e que sua mãe, pai, irmão e até o papagaio viessem para cá com tudo pago. Coitado do Bartolomeu… Ela achava que dinheiro aqui dava em árvore. Ele tinha umas economias, mas não muito.
Antes do casório, arrumou um trabalho para ela como housecleaner. Gislaine disse:
— Trabalhar aqui sem documento? Nem morta. Só trabalho quando tiver meu documento!
Ou seja, queria ser sustentada, teúda e manteúda sem dar nada em troca. Não tenho pena de homem, mas do Bartolomeu eu tenho. Já com seus 55 anos, cansado de trabalhar na construção, queria alguém que ajudasse nas despesas da casa. E ainda tinha que sustentar uma mulher que não podia comer e não queria trabalhar? Ahhh… se fosse eu, mandava de volta para Criciúma num voo econômico bem apertado, que nem sardinha na lata, ou descascando batata num navio.
Um dia, Barto foi levá-la para conhecer a Park Street, no centro de Boston. Ela demorava tanto para sair de casa que ele resolveu subir para ver o que estava acontecendo. Escondeu-se na escada, de frente para o apartamento, e viu Gislaine abrir e fechar a porta, contando cada vez. Quando chegou a 1200, girou a maçaneta para um lado e para o outro, contando até 180. Bartolomeu constatou que, além de tudo, ela tinha TOC. Desistiu de apresentá-la ao centro de Boston. Entrou em casa sem falar nada, tirou os sapatos, ligou a TV, pegou uma cerveja e sentou-se no sofá. Calmamente disse:
— Faça suas malas, hoje mesmo você vai voltar para Criciúma. Preciso de uma companheira, não de uma parasita!
Gislaine respondeu:
— Eu não quero ir embora. Gosto de você, Bartolomeu!
E o beijou da cabeça aos pés, fez Bartozinho ir ao céu e voltar mil vezes. Mandou às favas o casamento e concretizaram o ato ali mesmo: no sofá, no chão, na parede, na mesa de jantar… Bartolomeu esqueceu todos os problemas e continuou a sustentá-la até o green card sair, pois ele era cidadão americano.
E o TOC? Ele fica no carro esperando enquanto ela abre e fecha a porta e gira a maçaneta 200 vezes. Mas, quando chegam em casa, ele tira os sapatos, liga a TV, senta no sofá… e ela vira uma louca em cima dele. Se é medo de voltar para Criciúma ou amor, ninguém sabe. Mas que Bartolomeu gosta dos amassos dela, ah, isso gosta. Oh, se gosta…
SOBRE A COLUNISTA: Edel Holz é a mais premiada e consagrada atriz, roteirista, diretora e produtora teatral brasileira nos Estados Unidos. Inquieta e de mente profícua, Edel tem sempre um projeto cultural engatilhado para oferecer para a comunidade brasileira. Depois de anos de ausência, Edel volta a abrilhantar as páginas de um jornal. Damos as boas vinda à poderosa e de mente efervescente Edel.


