CARLOS WESLEY/MIAMI
O calendário eleitoral de 2026 pode ser um dos principais obstáculos para que Brasil e Estados Unidos cheguem a um acordo comercial definitivo nos próximos meses. Essa foi uma das conclusões do debate “Tarifas e Comércio Exterior: Impactos, Desafios e Oportunidades”, promovido pela Association of Brazilian Professionals in Logistics (ABPL) e pelo Ouribank, com apoio institucional do Consulado-Geral do Brasil em Miami.
A avaliação é que, embora as negociações tenham sido retomadas e o recente contato entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump tenha ajudado a reduzir as tensões, decisões de maior alcance podem ficar para 2027, depois das eleições brasileiras de outubro e das eleições legislativas americanas de novembro.
Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e integrante das articulações da delegação brasileira que mantém interlocução com autoridades americanas, a agenda é muito mais ampla do que a questão tarifária. Segundo ele, Washington também demonstra interesse em áreas como minerais críticos, mercados digitais e transição energética — temas que podem envolver mudanças regulatórias e até aprovação do Congresso brasileiro.
Barral também revelou que Lula e Trump poderão voltar a se encontrar durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. “Há muito em jogo, então realmente acredito que as duas partes vão se acertar a partir de 2027”, afirmou.
A perspectiva de Leonardo Capra, presidente da DRACO Freight Logistics, é mais cautelosa. Para ele, mesmo após as eleições, não há garantia de uma redução significativa das tarifas. Na avaliação do executivo, governos tendem a considerar a arrecadação proporcionada pelas tarifas e sua utilização como instrumento de política comercial e industrial.
Diante desse cenário, empresas já trabalham para reduzir os impactos da instabilidade. Thiago Covre, diretor da Maersk para a América Latina, resumiu o momento como “a era da imprevisibilidade”. Para ele, a capacidade de adaptação será decisiva para empresas que precisam rever fornecedores, mercados, rotas, custos e alternativas de financiamento.
João Granato, membro do Conselho da ABPL, também recorreu ao futebol para definir o novo ambiente internacional. “As equipes precisam se acostumar ao novo campo, pois não há perspectiva de mudança nos próximos sete anos”, afirmou.
Enquanto as negociações prosseguem, o setor privado busca soluções práticas. Durante o encontro, o Ouribank anunciou a ampliação de até 50% nos prazos de financiamento de fretes marítimos e aéreos. A medida poderá beneficiar importadores e exportadores de cerca de 120 empresas associadas à ABPL, que está celebrando 10 anos de história.
O evento reuniu representantes do governo, do setor empresarial e da comunidade brasileira no sul da Flórida. O embaixador Marco Farani, do Consulado-Geral do Brasil em Miami, e a prefeita de Doral, Christi Fraga, destacaram a importância de ampliar as conexões entre Brasil e Estados Unidos.
Para Erika Bachiega, representante comercial do Ouribank nos EUA e responsável pela organização do encontro, o objetivo é transformar o diálogo em uma iniciativa permanente. “Reunir especialistas, empresários e profissionais para discutir oportunidades é fundamental para compreender as mudanças e buscar caminhos concretos para enfrentar os obstáculos”, afirmou.


