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BOSTON — Massachusetts é conhecido por sua tradição liberal e por uma cultura política na qual ideias progressistas ocupam amplo espaço. É justamente nesse ambiente que uma sequência de episódios envolvendo ameaças, perseguições e intimidação contra republicanos e conservadores produz uma pergunta incômoda: o que acontece quando a convicção de estar do lado certo da história transforma o adversário político em alguém que não merece apenas ser derrotado, mas silenciado?
O caso mais recente envolve John Anthony Proia III, 41 anos, de Waltham, preso na quinta-feira (1º) e acusado federalmente de cyberstalking contra uma ex-assessora política e figura proeminente do Partido Republicano. Segundo o Departamento de Justiça, Proia teria feito pelo menos 40 ligações para a mulher entre 3 de agosto e 23 de setembro, utilizando diferentes números de telefone. Os pais dela também teriam recebido mensagens ofensivas. O acusado se declarou inocente.
O alvo, posteriormente identificado como Katie Miller, é casado com Stephen Miller, importante integrante do governo Trump. As mensagens, segundo os documentos judiciais, incluíam insultos contra o casal e referências ao fato de Stephen Miller ser judeu. O episódio ilustra uma característica da radicalização contemporânea: a divergência política deixa de ser dirigida exclusivamente ao adversário e passa a alcançar familiares e pessoas próximas.
Em Truro, no Cape Cod, o restaurante Montano’s também passou a receber ameaças depois de sediar, em setembro, um evento de arrecadação para dois candidatos republicanos. O proprietário relatou mensagens desejando que o estabelecimento pegasse fogo. Uma falsa chamada de emergência mobilizou policiais e bombeiros para uma área próxima ao restaurante. As autoridades investigaram o episódio, mas não estabeleceram publicamente uma ligação entre a falsa ocorrência e o evento político.
O caso provocou uma reação curiosa. Republicanos locais passaram a defender não apenas o restaurante, mas o direito de qualquer estabelecimento sediar eventos políticos legais sem sofrer retaliação. A cantora Carly Tefft anunciou uma apresentação no local para tentar transformar o episódio em apoio ao comerciante.
Não seria correto, entretanto, transformar esses episódios em prova de que existe uma campanha coordenada da esquerda contra republicanos. As evidências disponíveis não demonstram isso. Tampouco seria correto concluir que a radicalização pertence exclusivamente a um campo político.
Há exemplos em Massachusetts que apontam na direção contrária. Em abril, Andrew D. Emerald, de Great Barrington, foi preso e acusado de publicar oito ameaças contra Donald Trump no Facebook entre maio e julho de 2025. Segundo o Departamento de Justiça, as mensagens ameaçavam ferir ou matar o presidente.
E, em nível nacional, a escalada chegou ao extremo em julho de 2024, quando Thomas Matthew Crooks abriu fogo contra Trump durante um comício em Butler, na Pensilvânia. Trump foi ferido, dois espectadores ficaram feridos e Corey Comperatore morreu. O FBI classificou o episódio como tentativa de assassinato e investigou a possibilidade de terrorismo doméstico. A investigação não estabeleceu publicamente um motivo político para o ataque.
O episódio de Massachusetts envolvendo Bethany Abigail Terrill acrescenta outra dimensão. Em 2025, durante uma ação de agentes federais em Malden, ela teria celebrado a morte de Charlie Kirk e ameaçado matar os agentes. Em setembro deste ano, Terrill se declarou culpada de uma acusação relacionada à agressão contra agentes federais.
O nome de Kirk é particularmente revelador porque sua morte se transformou, nas redes sociais, em mais um campo de disputa política. O homem acusado de matá-lo, Tyler Robinson, é acusado criminalmente pelo assassinato. O processo, contudo, não permite simplesmente transformar as manifestações de terceiros em prova de que todo um campo político compartilha a mesma disposição para a violência.
É justamente aí que está a questão mais difícil.
Uma sociedade democrática não pode considerar a violência aceitável apenas porque o alvo representa aquilo que se considera moralmente errado. Tampouco pode tratar como virtude a desumanização do adversário simplesmente porque ela é praticada em nome de uma causa apresentada como justa.
O problema, portanto, não é exclusivamente de esquerda ou de direita. Os episódios são diferentes, seus autores têm motivações distintas e não há evidência de uma organização única por trás deles. O ponto comum está em outro lugar: quando o adversário deixa de ser alguém a ser convencido ou derrotado nas urnas e passa a ser tratado como alguém que deve ser intimidado, perseguido ou eliminado, a política deixa de funcionar como disputa democrática.
Massachusetts oferece um cenário particularmente interessante para observar essa transformação. Não porque seja o único lugar onde ela ocorre, mas porque, em um estado identificado com o progressismo americano, episódios de intolerância contra conservadores expõem uma contradição que merece ser examinada sem os filtros habituais da guerra partidária: se tolerância, inclusão e diversidade são valores universais, eles precisam valer também para quem pensa diferente.


