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O abrigo tinha apenas 80 centímetros de largura por 60 de altura. Era o espaço em que Kostiantyn Vlasenko, soldado ucraniano de 49 anos, tentava permanecer vivo. Ferido, sem os pés e praticamente incapaz de se movimentar, ele estava escondido sob uma estrutura metálica em uma escola destruída pela guerra. Do lado de fora, drones russos vigiavam a região. Para chegar até ele, os próprios companheiros precisavam atravessar uma área em que qualquer movimento poderia ser fatal.
Vlasenko já não acreditava que conseguiria voltar para casa.
Em fevereiro de 2026, um ataque russo matou seu companheiro de posição, um militar conhecido pelo indicativo de chamada Basky. Os dois haviam passado meses isolados, esperando uma substituição que lhes permitisse deixar a linha de frente. A explosão atingiu Vlasenko nas pernas, destruiu seu pé esquerdo e provocou uma fratura grave na outra perna.
Sem assistência médica, ele precisou enfrentar sozinho a deterioração dos ferimentos. O pé esquerdo foi comprometido pela necrose. A outra perna apresentava lesões graves, e o osso ficou exposto. A dor, a imobilidade e o isolamento reduziram drasticamente suas possibilidades de sobrevivência.
Depois de aproximadamente três meses, tomou uma decisão extrema. Com uma faca, amputou o próprio pé direito e improvisou um torniquete para conter o sangramento.
Não havia médico para realizar o procedimento, administrar anestesia ou avaliar as consequências. Vlasenko precisava agir nas condições que tinha, sem saber se conseguiria sobreviver ao que acabara de fazer.
Continuou escondido, dependendo de alimentos e outros suprimentos enviados por drones ucranianos. As tentativas de resgate por terra fracassaram. Veículos enviados para alcançar sua posição foram destruídos por aeronaves russas, e militares que tentaram chegar ao local morreram.
A cada tentativa frustrada, a possibilidade de voltar para casa parecia menor. Em entrevista à Reuters, Vlasenko relatou que chegou a perder a esperança e a se considerar enterrado vivo.
A saída surgiu de uma aeronave não tripulada de grande porte, adaptada para transportar pessoas. Antes da operação, um drone entregou ao soldado um suporte de evacuação e um telefone com instruções para utilizá-lo. Vlasenko precisou aprender a prender o próprio corpo ao equipamento, preparando-se para uma tentativa que poderia ser sua última oportunidade.
Em 4 de outubro, o drone chegou. O soldado foi acomodado no suporte e erguido a aproximadamente 70 metros de altura. Outros drones acompanharam o trajeto, numa tentativa de proteger a operação. Durante cerca de 15 minutos, ele atravessou o espaço aéreo sobre uma região de combate, suspenso por uma máquina enquanto deixava para trás o esconderijo em que passara meses esperando pela morte.
Ainda havia medo. Vlasenko contou que sua maior preocupação era cair na água, porque não sabia nadar.
A aeronave chegou ao destino, e ele finalmente pôde receber atendimento médico. Depois de 491 dias na linha de frente, estava fora da posição em que acreditava que morreria.
O resgate, porém, representa mais do que o desfecho de uma história individual. Ele também revela como a disseminação dos drones alterou as condições de combate na Ucrânia, impondo novos obstáculos às operações terrestres e obrigando os militares a buscar alternativas para transportar suprimentos e retirar feridos.
Em áreas monitoradas constantemente por aeronaves não tripuladas, deslocar veículos e equipes de resgate pode expor tanto os socorristas quanto os feridos a ataques. A dificuldade não está apenas na distância, mas na possibilidade de percorrer o trajeto sem ser localizado pelo inimigo. Em determinadas circunstâncias, uma rota terrestre aparentemente curta pode se tornar inacessível.
Os drones passaram a desempenhar funções que vão além do reconhecimento e do ataque. Podem entregar alimentos, medicamentos e equipamentos a soldados isolados e, quando têm capacidade de carga suficiente, transportar feridos para locais mais seguros.
Foi essa combinação de tecnologia e planejamento que permitiu a retirada de Vlasenko. A aeronave utilizada, o Ayudag-6, tem seis rotores e foi fabricada pela empresa ucraniana Gurzuf Defence. Segundo as informações publicadas pela Reuters, o equipamento pode transportar cargas de até 90 quilos e percorrer distâncias de até 25 quilômetros.
A operação, entretanto, não significa que drones desse tipo possam substituir amplamente os sistemas convencionais de evacuação médica. Capacidade de carga, autonomia, condições meteorológicas, vulnerabilidade a ataques e disponibilidade de equipamentos continuam sendo limitações importantes. O episódio demonstra uma possibilidade operacional concreta, mas não comprova que ela possa ser reproduzida em qualquer situação de combate.
Também seria equivocado interpretar o resgate como uma mudança decisiva no curso da guerra. Sua importância estratégica é limitada, embora seu resultado humano seja imenso para o soldado retirado do local.
A história de Vlasenko expõe, sobretudo, o custo de uma guerra em que a tecnologia pode tornar um combatente inacessível até mesmo para seus companheiros. Durante meses, ele dependeu de pequenas entregas aéreas para continuar vivo. Quando as tentativas de resgate por terra falharam, outra máquina precisou ser mobilizada para retirá-lo.
A tecnologia não devolveu os pés perdidos nem trouxe de volta o companheiro morto. Tampouco apagou os meses de dor e solidão. Mas permitiu que um homem que já não acreditava na própria sobrevivência deixasse o lugar onde estava confinado.
Depois de 491 dias, Vlasenko finalmente teve a oportunidade de recomeçar.


