
JSNews – 30 de janeiro de 2026
Imagine um agente federal, recém-saído de uma academia, armado até os dentes, enfrentando uma multidão furiosa que o chama de “nazista” ou “agente da Gestapo”. Ele ouve xingamentos, sente empurrões, vê rostos contorcidos de raiva. Com apenas 42 dias de preparação – um corte brutal dos antigos cinco meses –, será que ele tem as ferramentas para não explodir? Essa é a realidade sombria da Immigration and Customs Enforcement (ICE) no segundo mandato de Donald Trump, uma agência que, em nome da “segurança nacional”, sacrifica qualidade por quantidade, deixando um rastro de violência e desconfiança nas ruas americanas.
Vejo aqui um padrão perigoso: sistemas apressados que transformam agentes em bombas-relógio e comunidades em alvos.
Tudo começou com a promessa de Trump de deportar milhões. Para isso, a ICE precisava de mais gente – mais de 12 mil novos agentes contratados em ritmo acelerado desde 2025. O treinamento, que antes durava cerca de cinco meses (ou 22 semanas), com ênfase em lei de imigração, uso proporcional da força, desescalada de conflitos e até cinco semanas de espanhol básico, foi reduzido primeiro para 47 dias. Fontes internas do Departamento de Segurança Interna (DHS) revelaram à The Atlantic que o número 47 foi escolhido simbolicamente, em homenagem a Trump como o 47º presidente – uma vaidade que custa caro. Em janeiro de 2026, o programa encolheu ainda mais para 42 dias, com o DHS alegando “otimização tecnológica” – apps de tradução no lugar de aulas de idioma, e apenas quatro horas dedicadas a desescalada, espalhadas em aulas de prisão e uso de força. O DHS nega o simbolismo, mas o fato é: agentes saem “verdes” para as ruas, prontos para deter imigrantes em ambientes hostis, com armas letais nas mãos, uma combinação para um tempestade perfeita.
Por trás dessa pressa, há as cotas implacáveis: metas de 3 mil detenções por dia nacionalmente, para bater um milhão de deportações anuais. Cada escritório regional recebe ordens para 75 prisões diárias, criando uma pressão que prioriza números sobre humanidade. O resultado? Um aumento de 2.450% em detenções de pessoas sem histórico criminal, raids indiscriminados e uma agência que opera como uma linha de produção – quantidade acima de tudo. Agentes novatos, sob essa cobrança, enfrentam ruas onde a população os vê como inimigos: gritos de “nazista”, comparações com a Gestapo, empurrões e assédios constantes. É inegável: 42 dias não são cinco meses. Não dá tempo para forjar o equilíbrio psicológico necessário para lidar com estresse, provocações e ambientes voláteis. Esses agentes portam armas letais para cumprir ordens em territórios hostis – não parece razoável, e o risco é para todos.
As Mortes em Minneapolis: O Preço Humano da Pressa

Minneapolis virou o epicentro dessa tragédia. Em 7 de janeiro de 2026, Renee Nicole Good, uma cidadã americana de 43 anos, foi baleada mortalmente por um agente da ICE enquanto tentava se afastar em seu carro durante uma operação de rotina. Vídeos de testemunhas mostram que ela não representava ameaça imediata – apenas pânico. A narrativa oficial alegou que ela “tentou atropelar” o agente, mas as imagens contradizem: era uma fuga desesperada em meio ao caos da Operation Metro Surge, a maior caçada a imigrantes da história recente. Renee deixou uma família despedaçada, e sua morte inflamou protestos que ecoam até hoje.
Apenas 17 dias depois, em 24 de janeiro, Alex Pretti, um enfermeiro de UTI de 32 anos e também cidadão americano, foi morto a tiros por agentes da Customs and Border Protection (CBP) durante um protesto contra as operações da ICE. Pretti estava no meio da multidão, gritando por justiça, quando o confronto escalou. Relatos indicam que ele foi atingido no peito enquanto tentava ajudar um manifestante caído; vídeos capturam o pânico, com agentes apontando rifles e disparando em meio a empurrões e gritos. Sua morte não foi isolada: ao menos oito fatalidades ligadas à ICE em 2026, incluindo esses casos que chocaram porque as vítimas eram cidadãos, não imigrantes. Especialistas ligam isso ao treinamento rushed (apressado) – agentes sem ferramentas para desarmar tensões, reagindo com força letal onde uma palavra ou recuo bastaria.
Escaladas que Podiam Ser Evitadas: Truculência nas Ruas
Essas mortes são o ápice de um padrão. Em Minneapolis, durante a mesma operação, agentes usaram spray de pimenta no rosto de manifestantes, quebraram vidros de carros e aplicaram joelhadas no pescoço – manobra banida desde George Floyd. Um juiz federal interveio, limitando táticas e criticando “deturpações generalizadas” do governo. Em Chicago, raids com helicópteros incluíram estrangulamentos proibidos e tiros em pernas durante perseguições – mais de 40 casos documentados de asfixia. Em Worcester, a detenção de uma brasileira em maio de 2025 virou caos: multidão gritando “cadê o mandado?”, empurrões e prisões extras, com uma mulher algemada por tentar proteger uma criança. Esses incidentes escalam de provocações verbais para violência porque agentes, com formação reduzida, não têm o preparo para absorver o ódio sem revidar impulsivamente.
O Risco Compartilhado: Um Alerta aos Ativistas
Mas há uma camada oculta nessa investigação: o risco mútuo. Ativistas, corajosos em sua resistência, precisam reconhecer que confrontam agentes com formação limitada. Xingamentos, empurrões – provocações que testam limites frágeis. “Eles não são deficientes, mas 42 dias não constroem muralhas emocionais”, pondera um psicólogo forense consultado.
Seria de bom tom lembrar: protestos pacíficos, com câmeras e estratégia, minimizam perigos – evitando que o ciclo devore mais inocentes. Essa é a ICE de Trump: bilhões fluindo, mas um sistema que falha em proteger até seus próprios. Sem reformas, as ruas continuarão a sangrar.
Referências e Links:
- – The Atlantic (agosto 2025): https://www.theatlantic.com/politics/archive/2025/08/ice-recruitment-immigration-enforcement-billions/684000/
- – The Atlantic (janeiro 2026): https://www.theatlantic.com/politics/2026/01/ice-new-hires-training-minneapolis-shooting/685745
- – Brookings Institution: https://www.brookings.edu/articles/ice-expansion-has-outpaced-accountability-what-are-the-remedies
- – Snopes (janeiro 2026): https://www.snopes.com/news/2026/01/16/ice-training-47-days
- – Poynter (janeiro 2026): https://www.poynter.org/fact-checking/2026/ice-47-days-training-reduced-trump
- – NPR (janeiro 2026): https://www.npr.org/2026/01/28/nx-s1-5688919/sen-klobuchar-says-democrats-are-united-on-ice-reform-demands
- – DHS (janeiro 2026): https://www.dhs.gov/news/2026/01/22/day-1-secretary-noem-president-trump-have-enhanced-federal-law-enforcement-training
No Brasil, onde a violência policial é uma ferida aberta, o treinamento da Polícia Militar é outro mundo: 6 a 12 meses, com mais de 2.600 horas em São Paulo, incluindo simulações intensas de crises e foco em direitos humanos.
Na Brigada Militar do Rio Grande do Sul, módulos de 40 horas ensinam a lidar com estresse mental – algo que previne escaladas como as vistas nos EUA.
- – PM-SP (treinamento Brasil): https://www.policiamilitar.sp.gov.br/formacao/soldados
- – Brigada Militar RS: https://www.bm.rs.gov.br/ensino/formacao-policiais


