Nova York, 24 de março de 2026 — Enquanto longas filas se formam nos postos de segurança dos principais aeroportos dos Estados Unidos, agentes da Imigração e Alfândega (ICE) foram convocados para auxiliar no controle de multidões e na gestão operacional. A medida, determinada pela administração do presidente Donald Trump, busca mitigar os efeitos de uma paralisação parcial no Departamento de Segurança Interna (DHS), que já dura mais de um mês e deixou dezenas de milhares de funcionários da Administração de Segurança nos Transportes (TSA) trabalhando sem pagamento.
Vídeos que circulam nas redes sociais mostram confrontos tensos. Em um deles, gravado no Aeroporto Internacional Liberty de Newark, uma mulher grita para os agentes: “Nazistas não pertencem à América e não pertencem aos aeroportos”. Ela ainda os acusa de servirem ao “mestre Donald Trump” e exige “ICE fora agora”. Cenas semelhantes foram registradas em outros terminais, com viajantes frustrados dirigindo insultos aos oficiais, que permaneciam em sua maioria em silêncio, observando o movimento sem interagir diretamente.
A paralisação do DHS teve início em 14 de fevereiro, após impasse no Congresso sobre o orçamento da agência. Sem recursos aprovados, os mais de 50 mil agentes da TSA — considerados essenciais — continuam em serviço, mas sem receber salário regular. O resultado tem sido um aumento expressivo de faltas e demissões: mais de 400 oficiais deixaram o órgão desde o início da crise, e no último domingo a taxa de absenteísmo chegou a quase 12% em nível nacional, com picos acima de 40% em aeroportos como Atlanta e Nova Orleans.
A woman shouted “ICE out now” at agents inside Newark Airport, then another passenger stepped in, thanked them and shook their hands pic.twitter.com/ACodQfTMpX
— Surajit (@surajit_ghosh2) March 23, 2026
Em resposta, a Casa Branca determinou o envio de centenas de agentes da ICE para pelo menos 14 aeroportos importantes, incluindo JFK e Newark (Nova York), O’Hare (Chicago), Hartsfield-Jackson (Atlanta), Phoenix, Cleveland, Pittsburgh e Fort Myers. Os oficiais atuam em funções de apoio, como gerenciamento de filas, controle de áreas de desembarque e coordenação logística — nunca em tarefas primárias de triagem de segurança, para as quais não receberam treinamento específico.
O próprio presidente Trump defendeu publicamente a decisão e determinou que os agentes da ICE operassem sem máscaras. “Não gostei da imagem no aeroporto. Pedi que tirassem as máscaras e eles concordaram”, declarou. A medida visa dar maior transparência, embora tenha exposto os profissionais a hostilidades visíveis.
Especialistas em aviação questionam a eficácia prática da iniciativa. Antigos administradores da TSA argumentam que os agentes da ICE, treinados para aplicação da lei imigratória, não substituem o trabalho especializado de triagem e que sua presença pode até gerar mais tensão entre passageiros já irritados com esperas que chegam a três horas ou mais.
A crise reflete um embate político mais amplo. Democratas no Senado condicionam a liberação de recursos a reformas na atuação da ICE, citando especialmente a morte de dois cidadãos americanos durante uma operação de enforcement em Minneapolis, no início do ano. Republicanos, por sua vez, acusam a oposição de priorizar “criminosos estrangeiros” em detrimento da segurança e da fluidez do transporte aéreo.
Na segunda-feira, o Senado confirmou o senador republicano Markwayne Mullin (Oklahoma) como novo secretário do Departamento de Segurança Interna, em votação 54 a 45. Mullin substitui Kristi Noem, demitida após controvérsias. Dois democratas — John Fetterman (Pensilvânia) e Martin Heinrich (Novo México) — votaram a favor, enquanto o republicano Rand Paul se opôs.
É compreensível a frustração dos viajantes diante de atrasos que prejudicam planos de férias de primavera e viagens de negócios. No entanto, dirigir ofensas graves e comparações inaceitáveis — como chamar agentes federais de “nazistas” — configura assédio moral injustificável contra profissionais que cumprem ordens legais e tentam manter o funcionamento mínimo de um sistema essencial. Esses servidores públicos, muitos dos quais arriscam a vida diariamente no cumprimento do dever, merecem respeito e condições dignas de trabalho, independentemente do debate político sobre imigração.
A ICE existe para fazer cumprir a lei federal de imigração, frequentemente em contextos de alta complexidade e risco. Atribuir a ela epítetos extremados não contribui para o diálogo civilizado, apenas envenena o ambiente e expõe servidores a um clima de intimidação indevida.
Enquanto o Congresso não chega a um acordo, milhões de americanos pagam o preço em aeroportos lotados. A solução passa por responsabilidade compartilhada: financiar adequadamente os órgãos de segurança, garantir o pagamento devido aos servidores da TSA e, ao mesmo tempo, preservar a capacidade operacional da ICE sem transformá-la em bode expiatório de disputas partidárias. A segurança das fronteiras e a eficiência dos aeroportos não são luxos — são elementos fundamentais da ordem pública e do bem-estar coletivo.
Loudmouth Lupe screams at ICE agents in the Newark Airport, “Nazis don’t belong in America and they don’t belong in airports!” @TSA, found one for your No-Fly List. pic.twitter.com/KAc0zoQBA0
— Kim “Katie” USA (@KimKatieUSA) March 24, 2026


