
– Nos tribunais de imigração dos EUA, a burocracia lenta e implacável trabalha contra o imigrante, transformando a espera por justiça num fardo que pode custar tudo o que ele construiu. O Transactional Records Access Clearinghouse (TRAC), referência em dados migratórios, revela que, em maio de 2025, 2,2 milhões de pedidos de asilo estavam pendentes nos 72 tribunais do país. A espera média por uma audiência é de 4,3 anos (1.572 dias), mas em cidades como Omaha, Nebraska, chega a 5,94 anos (2.168 dias). Em casos mais complexos, como em Miami ou Nova York, com recursos ou apelações, o prazo pode se estender até 6 a 10 anos. Desde 2014, o volume de casos explodiu, enquanto o número de juízes – apenas 700 em todo o país – não acompanha, enquanto isso muitos imigrantes constroem uma nova vida nos EUA.
Após cinco, seis, até dez anos, eles têm empregos estáveis, às vezes um pequeno negócio, uma casa alugada ou comprada, filhos na escola, laços com a comunidade. Um requerente de asilo pode ser o dono de uma lanchonete em Phoenix, um pedreiro em Miami com clientela fiel ou uma mãe em Nova York que leva os filhos ao parque todo domingo ou mesmo um proprietário de uma loja de carro em Massachusets. Essa vida, erguida com esforço em meio à incerteza, é reconhecida pela Quinta Emenda, que garante o direito a um processo justo antes da deportação.
Mas a burocracia, com seus atrasos intermináveis, faz mais do que prolongar a espera: ela permite que raízes sejam criadas, apenas para serem arrancadas.
Desde maio de 2025, o ICE transformou os tribunais em armadilhas. Agentes passaram a deter imigrantes indocumentados logo após audiências em cidades como Nova York, Phoenix, Miami, Los Angeles e Seattle, especialmente quando casos são arquivados ou dispensados. Em Phoenix, nos dias 20 e 21 de maio, mais de uma dúzia de pessoas foram algemadas ao sair do tribunal, algumas diante de seus filhos. Em Miami, um pai foi levado na frente da família; em Nova York, uma jovem foi detida minutos após sua sessão, apesar de cumprir todas as exigências legais. Essas detenções, parte da expansão da remoção acelerada pela administração Trump – que agora abrange quem não comprovar dois anos de residência –, frequentemente seguem pedidos do ICE para arquivar casos, retirando as proteções que os imigrantes tinham durante o processo.
O TRAC aponta que, desde janeiro de 2025, mais de 60% dos detidos pelo ICE não tinham antecedentes criminais, desmentindo a ideia de que o foco é em “criminosos”. Em 4 de junho de 2025, o ICE realizou 2.200 prisões num único dia, muitas em audiências ou check-ins obrigatórios, com apoio de agências como FBI e DEA. Essa prática, criticada por grupos como a American Immigration Lawyers Association como uma violação do devido processo, intensifica o drama de quem já esperou anos.
Se a deportação ocorresse logo no início, na chegada do imigrante, o impacto, embora duro e desumano, seria menor. Mas, após meia década ou mais, o imigrante muitas vezes deixa para trás não só um emprego, um negócio ou uma casa, mas uma família constituída – cônjuges, filhos nascidos nos EUA, uma vida inteira, como o caso recente de um imigrante que chocou a comunidade brasileira em Massachusetts.
A espera prolongada, documentada pelo TRAC, faz com que o sistema não apenas negue alívio, mas destrua laços profundos. O processo de asilo, que exige provas detalhadas de perseguição, é ainda mais cruel sem advogados – um direito não garantido nesses tribunais. Cortes no financiamento para assistência jurídica, especialmente para crianças desacompanhadas, tornam a batalha quase impossível. Assim, a burocracia lenta, com esperas de 4 a 10 anos, e as detenções súbitas do ICE formam um ciclo perverso: o sistema dá tempo para o imigrante construir uma vida, apenas para arrancá-la na saída do tribunal, deixando para trás sonhos, famílias e tudo o que foi conquistado.