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Boston, 25 de Fevereiro de 2026 – A prefeita de Boston, Michelle Wu, anunciou os projetos vencedores do ciclo 2026 do Orçamento Participativo da cidade, direcionando US$ 2,2 milhões em investimentos comunitários decididos diretamente pelos moradores. Dentre as propostas selecionadas, cerca de um terço do valor total — US$ 700 mil — foi alocado para iniciativas voltadas ao apoio à população imigrante, o que gerou debates sobre as prioridades da administração em meio ao contexto de políticas de imigração federais mais restritivas.
Os projetos vencedores, escolhidos por votação aberta a residentes a partir de 11 anos de idade (independentemente de status de cidadania), incluem:
- Fundo de Defesa Legal para Imigrantes — US$ 400 mil, destinado a serviços jurídicos para imigrantes enfrentando detenção ou deportação, incluindo consultas, assistência em aplicações e representação legal.
- Caminhos Profissionais para Imigrantes: Ponte entre Idioma e Emprego — US$ 300 mil, focado em programas que ajudam a superar barreiras linguísticas e facilitam a inserção no mercado de trabalho.
A prefeita Michelle Wu destacou o caráter democrático do processo: “O orçamento participativo continua a demonstrar o que é possível quando os residentes têm voz direta na formação do futuro de Boston. Os projetos selecionados este ano refletem o foco das nossas comunidades em estabilidade habitacional, apoio à imigração, oportunidades no mercado de trabalho, empoderamento juvenil, crescimento de pequenos negócios e resiliência climática. Somos gratos a todos os residentes que participaram e ansiamos pela implementação desses investimentos nos bairros.”
Outros projetos aprovados abrangem áreas diversas, totalizando o montante de US$ 2,2 milhões:
- Acesso a alimentos frescos nos bairros — US$ 500 mil.
- Assistência para estabilidade habitacional — US$ 200 mil.
- Iniciativa de plantio de árvores em espaços públicos — US$ 100 mil.
- Programas de treinamento profissional em ofícios — US$ 300 mil.
- Oficinas de educação financeira para jovens — US$ 250 mil.
- Programa de desenvolvimento de pequenos negócios — US$ 150 mil.
Essas escolhas se alinham à postura da administração Wu, que tem se posicionado contra medidas de endurecimento imigratório da administração federal (especialmente sob o governo Trump), incluindo resistência a cortes de repasses federais para cidades santuários como Boston. Aliados da prefeita no Conselho Municipal, como a vereadora Ruthzee Louijeune, propuseram recentemente um fundo de emergência para imigrantes, que usaria recursos municipais e privados para defesa legal, estabilização familiar e outros apoios — iniciativa que ecoa parcialmente o fundo de defesa legal aprovado no orçamento participativo.
No entanto, a ênfase em proteções a imigrantes gerou críticas e questionamentos. O vereador Ed Flynn anunciou a apresentação de um pedido formal (17F) à prefeita, exigindo informações detalhadas sobre as solicitações de detenção (detainers) enviadas pela ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement) ao Departamento de Polícia de Boston (BPD), desde 1º de janeiro de 2024 até o presente. Flynn solicita documentos sobre comunicações federais, acordos de cooperação, número de detainers recebidos, motivos das solicitações e respostas da polícia local — com ênfase especial em saber se alguma delas se referia a “casos criminais em aberto”.
Flynn justificou a medida: “Quero cumprir meu dever de diligência e entender como a Polícia de Boston está trabalhando ou se comunicando com autoridades federais em desafios de segurança pública. O Conselho Municipal não realizou audiências públicas sobre o tema, e preciso estar plenamente informado sobre o que são esses pedidos, por que foram negados, quem os fez e as comunicações entre a polícia e o governo federal.”
De acordo com relatório do comissário de polícia Michael Cox submetido ao Conselho no mês passado, o BPD ignorou todos os 57 detainers emitidos pela ICE em 2025 (um aumento significativo em relação aos 15 de 2024). A justificativa é a Boston Trust Act, lei municipal de 2014 que consagra o status de cidade santuário: ela proíbe cooperação local em questões civis de imigração, mas permite colaboração em crimes graves, como tráfico humano, exploração infantil, tráfico de drogas/armas e crimes cibernéticos.
Flynn enfatizou que, embora apoie políticas de santuário em certos aspectos, acredita que “temos responsabilidade quando há qualquer tipo de atividade criminal — não podemos ignorá-la, independentemente de quem esteja envolvido. Precisamos garantir bairros seguros e saudáveis, com tolerância zero a qualquer atividade criminosa em Boston”.
O anúncio dos projetos e o pedido de Flynn ocorrem em um momento de tensão crescente entre políticas locais de proteção a imigrantes e as prioridades federais de enforcement imigratório, destacando as divisões sobre o equilíbrio entre direitos comunitários, segurança pública e soberania federal. A implementação dos projetos aprovados está prevista para começar na primavera de 2026.


