Por Alex Colombini
Existe um limite que nenhuma democracia séria pode ultrapassar: o limite da dignidade humana. E hoje, no Brasil, esse limite está sendo testado de forma inquietante e visível. O ex-presidente Jair Bolsonaro encontra-se hospitalizado, debilitado, enfrentando um quadro de saúde que exige cuidados constantes. Diante dessa realidade, sua defesa solicitou a concessão de prisão domiciliar — um direito que, em inúmeros casos semelhantes no país, já foi concedido por razões humanitárias.
Mas, neste caso, o tempo passa… e o silêncio permanece.
O que chama ainda mais atenção é que o senador da República Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e também advogado, levou pessoalmente esse pedido a um ministro do Supremo Tribunal Federal. Ainda assim, não há, até o momento, qualquer decisão concreta.
A pergunta que ecoa é simples: por quê?
Em um país onde decisões semelhantes já foram tomadas com rapidez em situações clínicas até menos delicadas, a demora neste caso levanta questionamentos inevitáveis. Não se trata de privilégio — trata-se de coerência. Trata-se de garantir que a lei seja aplicada de forma equilibrada, sem distinções que enfraqueçam a confiança da população.
E ainda um ponto que não pode ser ignorado: vivemos um momento em que decisões do Supremo, especialmente sob a condução do ministro Alexandre de Moraes, são amplamente apoiadas por uma parcela da sociedade. Mas até que ponto esse apoio pode justificar a ausência de questionamento? Até quando o país vai assistir, aplaudir e não refletir?
A Justiça não pode se afastar da realidade humana. Não pode se tornar insensível. E, acima de tudo, não pode permitir que dúvidas sobre equilíbrio, proporcionalidade e critérios diferentes se instalem no olhar da sociedade. Não estamos falando apenas de um nome, de um cargo ou de um espectro político. Estamos falando de princípios. Hoje é Bolsonaro. Amanhã pode ser qualquer cidadão brasileiro
O Estado tem o dever de punir, sim — mas também tem o dever de agir com humanidade. E quando esse equilíbrio se perde, perde-se também algo muito maior: a credibilidade das instituições. Clemência não é fraqueza. Clemência é a forma mais elevada de justiça. E negar isso, diante de um quadro evidente, é algo que o Brasil está assistindo com atenção — e que certamente entrará para a história como um momento de reflexão sobre até onde estamos dispostos a ir… e até onde deveríamos parar.


