
No Maine, onde a neve cai como um véu que encobre as pegadas dos caçadores e as trilhas dos caçados, eu, como repórter que já andou por becos esquecidos e periferias devoradas pela indiferença, registro mais uma dessas histórias que o mundo engole sem mastigar. Fátima Lucas Henrique, 28 anos, angolana que cruzou oceanos há dois anos para fincar raízes nesse solo gelado, não carrega crimes nas costas. Ela é auxiliar de enfermagem certificada, do tipo que acorda antes do sol para trocar fraldas de idosos, medir pressões, oferecer um copo d’água com paciência que falta ao sistema. Paga impostos, navega o emaranhado de papéis da imigração como quem sabe que um erro pode custar tudo. Seu namorado, Fonseca David, diz que ela é daquelas que mudam vidas, que fica forte mesmo no medo. Mas o sistema não vê rostos; vê números, alvos em uma operação chamada “Catch of the Day“, como se humanos fossem peixes a serem fisgados.
Era uma sexta-feira de janeiro de 2026, o frio cortante de South Portland ainda carregado da nevasca recente. Fátima ligou o motor do sedan usado, ajustou o retrovisor e seguiu para o turno, pensando nos pacientes que dependem dela. Então apareceram dois SUVs pretos sem marcas e bloquearam o carro de Fatima. Agentes da ICE saíram, batendo nas janelas, abrindo portas. “Saia do veículo”, ordenaram, sem tempo para explicações. Ela mostrou o uniforme azul, murmurou sobre os papéis, mas mãos firmes a puxaram para o asfalto nevado. Seus gritos – não discursos – ecoaram pela rua, capturados em vídeo por espectadores que buzinavam em vão. “Eu não fiz nada… meus pacientes… Fonseca…”, gritou, enquanto algemas cerravam seus pulsos. Uma busca no banco de dados criminal do Maine? Limpo. Nada. Ela não é o “pior dos piores” que o DHS alega caçar nessa operação que já engoliu mais de 200 no estado, de uma meta de 1.400, muitos sem ficha, pegos em perfilamento racial, em ônibus ou veículos, enquanto comunidades angolanas se trancam em casa.
E para onde a levaram? Para o centro de processamento da ICE em Burlington, Massachusetts, no 1000 District Avenue, um prédio cinzento em um subúrbio de Boston que mais parece um armazém de almas esquecidas. Ali, o field office do ICE Boston gerencia detidos como ela, em celas superlotadas onde o ar é úmido e pesado, cheirando a mofo, a urina e a desinfetante barato, que não mascara o fedor de corpos amontoados.
Relatórios de junho de 2025, do The Bedford Citizen, falam de condições inumanas: detentos adolescentes denunciando acordos quebrados, falta de higiene básica – banheiros entupidos, chuveiros frios e irregulares, lençóis sujos trocados a cada semanas. Ativistas foram presos em dezembro de 2025 só por tentar entregar comida e roupas quentes, como mostrado em vídeos do YouTube, porque o que sai dali é racionado, insuficiente, deixando gente como Fátima com fome e frio em celas que mal cabem camas. Cuidados médicos? Mínimos, atrasados – uma pílula aqui, uma consulta ali, mas nada para o estresse que corrói por dentro. Visitas congressionais, como a do deputado Seth Moulton em janeiro de 2026, revelam barreiras federais a inspeções surpresa, enquanto o DHS ignora chamadas do governador Janet Mills.
Transferências rápidas para instalações piores no Sul, como Louisiana, acontecem no escuro, sem aviso, separando famílias para sempre. Fátima está lá desde a prisão, aguardando bond que o Project Relief Maine tenta pagar com uma vaquinha que mal chega a US$ 1.300, comunicação cortada, voz reduzida a ecos em paredes de concreto.
A amiga de Fátima, angolana como ela, sussurra: “Podia ser eu… não podemos nem jogar lixo fora”. O governador chama de “polícia secreta”, mas as ligações para Washington caem no vazio. Em Massachusetts, ativistas preveem o mesmo surge, como na MassLive: “É só questão de tempo”.
E assim vai o mundo, com seu mal entranhado, inalterável como o ciclo da neve que derrete e congela de novo. Os fortes ditam as regras, os fracos – como Fátima, sonhando com uma vida simples de trabalho e família – são caçados, seus gritos abafados em celas imundas, sonhos interrompidos como estradas bloqueadas. Resta o lamento, um murmúrio baixo, sem força para mudar o que sempre foi.


