Por: Edel Holz : Nos anos 80, precisamente em 1981, mamãe resolveu deixar Sampa da garoa e da poluição diária para mudarmos definitivamente para Passos, nossa Terra Natal. Eu tinha 13 anos de idade. Havia deixado um amor platônico na capital paulista e partimos para Passos, onde meus amigos de infância e o cheiro de terra molhada depois de uma chuvinha gostosa esperavam por mim.
A casa da Vovó Inocência cava bem na esquina da Rua Barão de Passos. Por for a, ela amarela. Dentro, era imensa para nossos olhos infantis. O alpendre tinha um banco e um parapeito onde todos se sentavam.
Alí, cantávamos com a turma do irmão, jogávamos cobra, água e pedras nos passantes e brincávamos de pera, uva e maçã, pro nosso desespero- porque sempre alguém dava um selinho na nossa boca. A noite, a gente se reunia na porta do Passos Clube, encostadas nos carros estacionados na rua.
Podíamos ouvir a música da Discoteca Kanguru na maior altura onde quer que estivéssemos. O Trupikão era na esquina. Comíamos chicken-in e batata frita com um chopp da hora. O Zé Porteiro me barrou uma vez na Discoteca dos adultos, porque estava vestindo um vestido de avental, com um baita laço na cabeça.
O dinheiro era contadinho e reservado pra comermos o Sanduiche do Bolinha. Como o próprio nome diz, era gordinho nosso Bolinha, moreno jambo e muito simpático.
Distribui um sorriso enorme pra cada um de seus clientes e servia o sanduba mais gastoso da cidade: Pão francês na chapa, com carne de boi, queijo e tomate ou o lombo, substituindo a carne de vaca.
O queijo queimadinho e sequinho na borda, fazia pedra chorar. Hummm… De lamber os beiços. Domingo depois da missa das 19 horas, toda a cidade ia pra lá se deliciar com o sanduiche do Bolinha. Seus filhos ainda crianças o ajudavam pra caramba. Num desses domingos, Sanzio, filho do Carlos Magno, entrou no Clube montado num cavalo imenso. Foi uma gritaria geral.
O cavalo se assustou, empinou e a correria da gente pra fugir do cavalo não foi moleza. Nos dias de Bailes e festas no andar de cima, a gente fumava escondidas no banheiro e beijávamos nossas paquerinhas na sacada do Clube. Como Nessa época já Morava no Credi-Real, iamos de bando pra casa, caminhando de madrugada, com a lua nos protegendo e as estrelas nos iluminando.
O sino da Matriz tocava e continuávamos a dormir até a hora do almoço. Todo m de semana, o Passos Clube era nosso point. Pegávamos uma carona com algum conhecido (porque todo mundo era conhecido) e terminávamos a noitada no Kuka Freska. Mas essa é uma outra história!
SOBRE A COLUNISTA: Edel Holz é a mais premiada e consagrada atriz, roteirista, diretora e produtora teatral brasileira nos Estados Unidos. Inquieta e de mente profícua, Edel tem sempre um projeto cultural engatilhado para oferecer para a comunidade brasileira. Depois de anos de ausência, Edel volta a abrilhantar as páginas de um jornal. Damos as boas vinda à poderosa e de mente efervescente Edel.