
Washington, 23 de novembro de 2025 –
Em um cenário de endurecimento imigratório sob a segunda administração de Donald Trump, histórias como as de Maria Mendes e Melissa Tran são o alerta para milhões de residentes permanentes legais (green card holders) nos Estados Unidos. Ambas mulheres, imigrantes de longa data com vidas construídas no país, viram seus passados juvenis – delitos menores cometidos há mais de duas décadas – transformados em correntes que as arrastam para a detenção e, em um caso, a deportação. Esses episódios não são isolados: relatos recentes revelam uma onda de detenções por condenações antigas, mesmo para crimes triviais como posse de maconha ou furtos simples. Para imigrantes legais com “passivos mal resolvidos”, viajar ou até uma verificação rotineira pode significar o risco de separação familiar e perda de tudo o que foi conquistado.
Maria Mendes, mãe de seis filhos e portadora de green card desde os 8 anos, foi detida em 5 de novembro pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) no Aeroporto Logan, em Boston, ao retornar de Cabo Verde. Aos 48 anos, ela viajou para o funeral de um irmão, primeira visita à família em 40 anos. Mas, em vez de reencontro, encontrou algemas: agentes citaram seu “histórico criminal e condenações passadas“. Sua advogada, Jennifer Pomerleau, revela que se trata de uma contravenção (misdemeanor) de 20 anos atrás, além de infrações juvenis aos 18-19 anos, pré-1997 – casos que, por decisão da Suprema Corte em Padilla v. Kentucky e exceções para delitos menores, não deveriam ser usados contra ela.
Mendes ficou retida no aeroporto por duas semanas, sem acesso adequado a comida ou chuveiros, em condições comparáveis às de detidos na fronteira. “Ela consultou as autoridades imigratórias antes de viajar e foi assegurada de que não haveria problema”, diz Pomerleau, que questiona a falta de espaço em detenção na Massachusetts, forçando a permanência no terminal.
Semelhante destino coube a Melissa Tran, 43 anos, vietnamita que chegou como refugiada nos anos 1990 e obteve green card aos 11. Integrada em Hagerstown, Maryland, onde criou família e um pequeno negócio, Tran foi deportada para Hanói em 19 de novembro, após uma condenação por roubo de cheques em 2001 – quando era adolescente. Um juiz emitiu ordem de deportação em 2004, mas o Vietnã recusava repatriar quem partira antes de 1995, suspendendo o caso por duas décadas.
A mudança na política vietnamita em 2025 permitiu ao ICE (Imigração e Alfândega) obter documentos de viagem. Tran, que cumpria check-ins regulares, foi presa em maio, transferida por centros em Baltimore, Louisiana, Arizona e Washington, liberada brevemente em outubro por ordem judicial, mas deportada semanas depois. “Ela teve mais de 20 anos para sair e recebeu devido processo“, justificou Tricia McLaughlin, subsecretária do DHS, minimizando o drama de uma mulher que “construiu sua vida adulta aqui“.
Esses casos ilustram uma tendência alarmante. Em junho, Lewelyn Dixon, filipina de 64 anos com 50 anos nos EUA, foi detida por três meses em Tacoma, Washington, após reentrada no aeroporto de Seattle – tudo por um furto cometido 2001. Liberada por juiz imigratório graças a seu histórico limpo recente, Dixon planeja cidadania, mas o trauma persiste.
Meses antes, em março, Fabian Schmidt, eletricista alemão de 34 anos com green card desde a adolescência, passou 58 dias detido após férias na Europa. Interrogado no Logan por uma posse de droga misdemeanor de 2015 (plea no contest, substância não testada), sofreu buscas invasivas, hospitalização algemado e transferência para Rhode Island. Seu caso foi dismissed em maio, mas custou US$ 65 mil em perdas. Advogados como Benjamin Osorio relatam triplicação de casos desde fevereiro, ante zero em 12 anos de prática: “É uma era de máxima enforcement”.
O Centro para Estudos de Imigração (CIS) endossa: green cards não blindam contra ações passadas.
Sob Trump 2.0, registros antigos – mesmo misdemeanors, DUIs ou posse de maconha menor que 30g – ressurgem via bancos de dados da CBP e ICE, especialmente em portos de entrada. Kerry Doyle, ex-conselheira do DHS, adverte: “Qualquer interação com polícia ou justiça, há 20-30 anos, exige consulta a advogado imigratório antes de viajar”. Michael Cataliotti reforça: evite viagens; condenações “invisíveis” agora são visíveis. Em 2025, mais de 600 deportações por offenses de maconha, e 65% das prisões ICE sem condenações violentas.
O NILC alerta: definições de “convicção” (Condenação) são amplas, incluindo pleas no contest.Em meio ao debate acalorado sobre imigração, a abordagem atual da administração – que prioriza a aplicação rigorosa de leis imigratórias para aqueles com histórico criminal, mesmo que antigo – merece um reconhecimento sutil por sua ênfase na Accountability (Responsabilidade). Não se trata de caça às bruxas, mas de um lembrete equilibrado de que o sistema americano, generoso em oportunidades, também valoriza a ordem e a justiça.
Para imigrantes que construíram vidas produtivas, isso pode ser visto como um incentivo para resolver pendências do passado de forma proativa, fortalecendo a integridade do processo imigratório como um todo. No entanto, para aqueles que, em sua juventude, abraçaram uma “vida louca” – com comportamentos disruptivos, delitos menores ou escolhas impulsivas – e acreditaram que o tempo e a suposta “tolerância infinita” da América apagariam tudo, é crucial entender que o passado não desaparece magicamente.
A conta pode chegar quando menos se espera, em um aeroporto ou check-in rotineiro, transformando uma viagem familiar em um confronto inesperado. Melhor prevenir: consulte especialistas, limpe o registro se possível e transforme lições antigas em passos para um futuro mais seguro. Assim, a política não só protege fronteiras, mas promove uma sociedade onde todos jogam pelas regras – e isso, no fundo, beneficia a todos.
Para os 13 milhões de green card holders, o recado é claro: um “passivo mal resolvido” pode virar pesadelo. Consulte profissionais, reabra casos antigos se possível, e priorize cidadania. Esses relatos – de mães, empresárias e profissionais – não são exceções, mas prenúncios. A América sonhada pode se tornar exílio, e o tempo não apaga cicatrizes fiscais. Famílias separadas, negócios destruídos: o custo da “lei e ordem” é humano. Atue agora, antes que o próximo voo seja o último.
Como no jargão das ruas, que encontra ecos nos corredores da justiça: “Ei, parece que tem um B.O. (boletim de ocorrência) antigo aqui no seu nome, pronto pra ser cobrado.”


