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Washington, 13 de abril de 2026 – Enquanto as autoridades de imigração executam a “maior operação de deportação em massa da história americana”, prometida pelo presidente Donald Trump, vários estados americanos aprovam leis emergenciais para evitar que filhos de imigrantes detidos entrem no sistema de acolhimento estatal (foster care) quando não há familiares ou amigos disponíveis para assumir a guarda temporária.
O governo federal não registra oficialmente quantas crianças entram em abrigos por ações de aplicação da lei de imigração, o que torna difícil dimensionar a real extensão do fenômeno. Em Oregon, por exemplo, até fevereiro deste ano, apenas duas crianças haviam sido colocadas em foster care após a detenção dos pais, segundo Jake Sunderland, porta-voz do Departamento de Serviços Humanos do estado.
Dados parciais revelam o impacto crescente. Até meados de fevereiro, quase 70 mil pessoas estavam detidas pela Immigration and Customs Enforcement (ICE). Em janeiro, o número recorde de 73 mil detidos representou um aumento de 84% em relação ao ano anterior. De acordo com reportagem da ProPublica, pais de cerca de 11 mil crianças cidadãs americanas foram detidos desde o início do segundo mandato de Trump até agosto de 2025. O site NOTUS informou, em fevereiro, que pelo menos 32 crianças de pais detidos ou deportados foram colocadas em abrigos em sete estados.
A separação de um dos pais causa trauma profundo nas crianças e pode gerar diversos problemas de saúde e psicológicos, incluindo transtorno de estresse pós-traumático. O estresse tóxico prolongado está associado a infecções mais frequentes, atrasos no desenvolvimento e danos em áreas do cérebro responsáveis pelo aprendizado e pela memória, segundo a KFF Health News.
Diante da escalada das operações de deportação, estados como Maryland, Nova York, Washington D.C. e Virgínia já haviam alterado leis durante o primeiro mandato de Trump para permitir a nomeação de guardiões temporários em casos de aplicação da lei de imigração. Agora, uma nova onda de respostas legislativas surge.
Em Nova Jersey, parlamentares analisam um projeto que amplia lei existente sobre guardiões standby para incluir separações causadas por ações federais de imigração. Nevada e Califórnia aprovaram leis no ano passado para proteger famílias separadas por enforcement migratório. A lei californiana, Family Preparedness Plan Act, permite que pais nomeiem guardiões e compartilhem direitos de custódia temporariamente, em vez de suspendê-los durante a detenção. Os pais recuperam plenos direitos caso sejam liberados e consigam se reunir com os filhos.
Estima-se que 5,6 milhões de crianças cidadãs americanas vivam com pelo menos um familiar sem status legal, segundo pesquisa da Brookings Institution. Desse total, 2,6 milhões têm ambos os pais sem documentação.
Casos de separação familiar deve crescer à medida que a campanha de enforcement do governo Trump avança. Diretrizes da ICE determinam que a agência deve facilitar a participação de pais detidos em processos judiciais de família, mas não há clareza sobre o cumprimento efetivo dessas regras. A ICE não respondeu aos pedidos de comentário.
Antes da lei da Califórnia, a única forma de compartilhar direitos de custódia era em casos de doença terminal. Agora, pais que elaboram um plano de preparação familiar podem indicar um responsável sem abrir processo formal de acolhimento estatal.
Em Nevada, a expansão da lei de guarda exige documentação notarial junto ao secretário de Estado, o que pode ser um obstáculo burocrático. Advogados de imigrantes relatam que muitas famílias ainda hesitam em preencher formulários oficiais por medo de que as informações cheguem à ICE, embora as autoridades estaduais garantam que os documentos são seguros e acessíveis apenas a hospitais e tribunais.
Especialistas destacam que muitos pais imigrantes desconhecem seus direitos. Elaborar um plano de preparação familiar é uma das formas de reduzir a sensação de impotência.
Enquanto a maior operação de deportação da história americana avança, o debate sobre o custo humano para milhares de crianças cidadãs dos EUA ganha força em estados de todo o país.


