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Washington, 02 de Fevereiro de 2026 — Com o aumento significativo no número de imigrantes detidos em instalações federais do ICE (Imigração e Alfândega dos EUA) durante o segundo mandato do presidente Donald Trump — chegando a cerca de 68 mil a 70 mil pessoas, a maioria cristãs —, questões como acesso a cuidados médicos, alimentação adequada e higiene já vinham sendo amplamente debatidas. Recentemente, porém, outro aspecto básico ganhou destaque: o direito à prática religiosa.
Defensores de direitos humanos e líderes religiosos alertam que muitos detentos estão com acesso limitado ou inexistente a serviços de culto, especialmente agora, durante a Quaresma (para cristãos) e o Ramadã (para muçulmanos), períodos centrais para essas tradições.
Em vários casos, grupos de fé recorreram à Justiça para garantir visitas de clérigos. Por exemplo, uma coalizão católica obteve decisão judicial favorável para entrar em uma instalação em Broadview, Illinois, na Quarta-feira de Cinzas (18 de fevereiro de 2026). O juiz federal Robert W. Gettleman determinou que o Departamento de Segurança Interna (DHS) permitisse a administração de Comunhão e a imposição de cinzas na testa dos detentos católicos que desejassem participar, após meses de negativas. O magistrado destacou que a proibição causava “dano irreparável” tanto aos detentos quanto aos religiosos que buscam oferecer apoio espiritual.
Na mesma data, o cardeal Blase Cupich, de Chicago, celebrou uma missa ao ar livre bilíngue próxima ao local, com mais de 3 mil participantes. Em sua homilia, ele enfatizou: o valor das pessoas não depende de vistos ou documentos, mas do sopro divino que as habita.
Em outras regiões, como Nova Jersey, o cardeal Joseph Tobin presidiu missa de Quarta-feira de Cinzas para detentos em uma instalação do ICE em Newark, afirmando a importância da presença da Igreja para respeitar a dignidade humana.
Em Los Angeles, padres solicitaram acesso a uma unidade federal para levar cinzas e oferecer orientação pastoral, mas foram impedidos. Realizaram então um culto de oração do lado de fora. Um dos sacerdotes comparou a situação à negação de atendimento médico em emergências, argumentando que barrar o contato espiritual causa danos semelhantes.
No Texas, onde há mais de 20 instalações federais, defensores de detentos muçulmanos relatam escassez crônica de capelães islâmicos. Com o Ramadã em curso (iniciado em meados de fevereiro), a falta de ajustes em horários de refeições — como suhoor antes do amanhecer e iftar ao entardecer — e de alimentos halal certificados tem gerado dificuldades. Muitos detentos, estimados em cerca de 5% no estado, dependem de capelães de outras religiões, o que nem sempre garante o cumprimento pleno das exigências da fé.
As normas internas do ICE preveem que detentos possam participar de práticas religiosas, desde que não comprometam a segurança e a ordem da instalação, e que pedidos de dietas especiais por motivos religiosos sejam atendidos quando viáveis. Na prática, porém, o acesso varia muito entre as unidades.
Líderes católicos, incluindo bispos da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, têm criticado publicamente as políticas de imigração atuais, destacando que a maioria dos imigrantes sem status legal ou com proteção temporária nos EUA é cristã (mais de 60% católicos, segundo relatórios recentes). Eles defendem que o acesso ao cuidado pastoral em detenção é questão de liberdade religiosa, garantida pela Constituição americana.
O ICE não comentou publicamente os casos específicos recentes. A discussão continua em tribunais e na sociedade, refletindo tensões entre segurança nacional, direitos humanos e liberdade de culto em um contexto de intensificação das operações de imigração.


