
Caetés, Pernambuco – 16 de janeiro de 2026 – Em um gesto carregado de simbolismo histórico e político, integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) realizaram uma manifestação inusitada no município de Caetés, em Pernambuco, local onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria vivido. Liderados por Renan Santos, fundador do MBL e pré-candidato à Presidência da República, o grupo jogou sal grosso em frente à residência associada à família do petista, em um gesto divulgado nas redes sociais na quinta-feira (15/1). A iniciativa, descrita como um protesto contra o “lulismo”, busca mobilizar apoiadores para um enfrentamento político ao atual governo.
O vídeo publicado por Santos nas redes sociais captura o momento, onde ele compara a simplicidade da casa – uma réplica da residência onde Lula nasceu – com a realidade socioeconômica da região. Santos argumenta que o presidente mantém uma imagem de “homem comum” apesar de sua trajetória política, utilizando o local como pano de fundo para criticar o que ele vê como hipocrisia. Mas o ponto central do ato reside na analogia histórica invocada pelo pré-candidato: a destruição de Cartago pelos romanos nas Guerras Púnicas.
Renan Santos visita a casa de nascimento de Lula e joga sal grosso pra garantir que nenhuma figura bizarra venha de lá novamente pic.twitter.com/wl6nzFmHfP
— Sydney Sweeney da Missão (@SSweeneyMissao) January 15, 2026
A Simbologia do Sal Grosso e a Lenda de Cartago
A referência a Cartago não é casual. Durante as Guerras Púnicas (264-146 a.C.), Roma e a cidade-estado fenícia de Cartago (atual Tunísia) travaram uma série de conflitos brutais pela supremacia no Mediterrâneo Ocidental. Na Terceira Guerra Púnica, em 146 a.C., os romanos, liderados pelo general Cipião Emiliano, sitiaram e destruíram completamente Cartago. Segundo uma lenda histórica popular – embora não comprovada por fontes antigas como Políbio ou Apiano, e considerada por historiadores modernos como um exagero posterior – os vencedores teriam espalhado sal sobre as terras arrasadas para tornar o solo infértil, impedindo qualquer renascimento agrícola ou civilizacional no local.
Essa imagem simbólica de “salgar a terra” evoluiu ao longo dos séculos para representar uma vingança absoluta e irreversível, uma forma de condenar um inimigo ao esquecimento eterno. No contexto do ato do MBL, Renan Santos explicitamente recorre a essa narrativa: “Ele citou a derrota de Cartago pelo Império Romano, nas Guerras Púnicas, e disse que, após a vitória, os romanos teriam jogado sal sobre o território inimigo para impedir que algo voltasse a nascer. ‘Foi isso que nós fizemos'”, relata a cobertura jornalística. Aqui, o sal grosso não é apenas um gesto folclórico brasileiro (comum em rituais de “limpeza” espiritual), mas uma metáfora política: o desejo de “esterilizar” as raízes do lulismo, impedindo que figuras semelhantes ou ideologias associadas ao PT “renasçam“ no cenário brasileiro.
Historiadores destacam que a lenda de Cartago serve como um aviso sobre os perigos do extremismo em conflitos: enquanto Roma emergiu vitoriosa, o ato de destruição total marcou o fim de uma era de rivalidade, mas também perpetuou narrativas de crueldade. No Brasil contemporâneo, esse simbolismo pode ser interpretado como uma crítica radical ao legado de Lula, mas também levanta questões sobre o tom das disputas políticas em um ano pré-eleitoral.
Contexto Político e Cuidados Eleitorais
O episódio ocorre em um momento de aquecimento para as eleições de 2026, com Santos posicionando-se como uma voz oposicionista de direita. Como pré-candidato, atos como esse podem ser vistos como estratégias de visibilidade, mas devem observar as normas da legislação eleitoral brasileira. A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) e resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proíbem propaganda eleitoral antecipada, definindo-a como atos que promovam candidaturas de forma explícita antes do período permitido (geralmente a partir de agosto do ano eleitoral). No entanto, protestos simbólicos como esse, sem menções diretas a votos ou campanhas, tendem a ser interpretados como liberdade de expressão, desde que não envolvam gastos ou estruturas partidárias irregulares. Até o momento, não há indícios de violações reportadas, e o ato parece se enquadrar em manifestações políticas legítimas.
Reações nas redes sociais foram polarizadas: apoiadores do MBL elogiaram a “criatividade” do protesto, enquanto críticos o tacharam de desrespeitoso e infantil. O Palácio do Planalto não se manifestou oficialmente sobre o incidente até o fechamento desta reportagem.
Esse ato em Caetés ilustra como a história antiga pode ser resgatada para alimentar debates atuais, transformando um punhado de sal em um símbolo de resistência política. Resta observar se essa estratégia mobilizará eleitores ou apenas intensificará as divisões no país.


