
Em uma ligação telefónica que durou cerca de cinquenta minutos, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump marcaram, nesta segunda-feira, 26 de janeiro de 2026, uma reunião presencial em Washington para o mês de fevereiro. O encontro, que ocorrerá após a viagem de Lula à Ásia (Índia e Coreia do Sul), surge num momento em que as relações entre Brasil e Estados Unidos atravessam uma fase de pragmatismo cauteloso, marcada por convergências e inevitáveis fricções.
Segundo o comunicado oficial do Palácio do Planalto e a cobertura da agência Reuters — principal fonte americana a noticiar o facto em tempo real —, os dois líderes abordaram temas de peso: a estabilidade regional, com ênfase na Venezuela; o combate ao crime organizado transnacional (tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e armas); e, sobretudo, a proposta de Trump para um “Conselho da Paz” (ou Board of Peace), iniciativa lançada há poucos dias e que o presidente americano pretende usar como instrumento para mediar conflitos internacionais.
Lula, fiel à sua tradição diplomática, sugeriu que o conselho se restrinja à crise em Gaza e inclua representação palestina, evitando que se transforme numa espécie de “nova ONU” sob controlo unilateral de Washington — receio que o próprio presidente brasileiro já expressara publicamente dias antes. Trump, segundo relatos, acolheu a ideia com interesse, deixando os detalhes para a conversa cara a cara. O tom da ligação foi descrito como construtivo, com ambos a sublinharem o “bom momento” das relações bilaterais e o otimismo económico que anima as duas nações.
Não é a primeira vez que os dois dialogam por telefone — esta foi a terceira chamada desde setembro de 2025 —, mas o agendamento de uma visita presencial ganha relevância num contexto regional agitado. A recente captura de Nicolás Maduro por forças americanas (em 3 de janeiro) provocou forte reação de Lula, que classificou o episódio como “precedente extremamente perigoso”. Na conversa de ontem, o presidente brasileiro reiterou a necessidade de preservar a paz e a estabilidade na América do Sul, priorizando o bem-estar do povo venezuelano.
Do lado económico, embora a nota oficial não o mencione explicitamente desta vez, paira no ar o histórico das tarifas americanas de 50 % sobre produtos brasileiros — medida que Lula conseguiu mitigar parcialmente em negociações anteriores. Trump, por sua vez, tem usado o comércio como alavanca para reforçar a influência dos Estados Unidos no hemisfério ocidental, oferecendo pacotes de ajuda a aliados como a Argentina em troca de concessões.
Analistas observam que o encontro pode ser uma oportunidade para testar se diferenças ideológicas profundas — de um lado, o nacionalismo “America First” de Trump; do outro, a diplomacia multilateral e sul-global de Lula — conseguem ceder espaço a interesses concretos: comércio mais fluido, segurança regional e, quem sabe, uma cooperação pontual em fóruns de paz.
Por ora, o que se sabe é que fevereiro promete ser quente na agenda diplomática. Lula viaja para a Ásia, regressa e, em seguida, desembarca em Washington. Resta saber se a química pessoal que Trump já elogiou em encontros anteriores (como o da Assembleia-Geral da ONU) será suficiente para superar as desconfianças acumuladas. Num mundo que parece girar cada vez mais em torno de pragmatismo cru, a reunião entre o operário metalúrgico que chegou à presidência e o magnata que voltou à Casa Branca pode reservar surpresas — ou, pelo menos, boas fotos para as manchetes.
E assim segue o baile da geopolítica: dois líderes improváveis, uma ligação inesperada e um encontro marcado para fevereiro. O tempo dirá se foi apenas cortesia protocolar ou o início de algo mais substantivo.


