Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores, hoje quero conversar com vocês sobre um tema silencioso, mas profundamente presente na vida de muitas pessoas: a solidão. Não aquela solidão passageira de um dia chuvoso ou de um momento de descanso, mas aquela que se instala no coração e começa a ecoar pensamentos difíceis. Hoje também quero falar sobre algo que pode transformar essa experiência: a solitude — e como a ressignificação pode mudar tudo. Como psicóloga, preciso afirmar algo muito importante: solidão não é fraqueza.
A ciência tem mostrado de forma consistente que a solidão prolongada impacta diretamente nossa saúde física e mental. Estudos indicam aumento do estresse, alterações na pressão arterial, piora do sono, maior risco de depressão e até declínio cognitivo. Nosso cérebro foi criado para conexão. Somos seres relacionais. Quando ficamos isolados por longos períodos, o corpo sente.
O coração emocional e o coração físico conversam mais do que imaginamos. Quantas vezes ouvimos frases como: “Depois que meus filhos cresceram, a casa ficou vazia.” “Não posso dirigir, dependo dos outros.” “Às vezes parece que fui esquecido.” Essas falas revelam mais do que ausência de companhia. Revelam uma dor de identidade. A solidão dói quando passa a significar abandono. Ela machuca quando o pensamento dominante se torna: “Eu não sou mais importante.” É aqui que entra um conceito essencial da psicologia: não são apenas os fatos que determinam nossas emoções, mas a interpretação que fazemos deles. Estar sozinho é um fato. Sentir-se descartado é uma interpretação.
E é nessa diferença que encontramos a possibilidade de transformação. Precisamos distinguir solidão de solitude. Solidão é a experiência de desconexão indesejada. É quando a ausência pesa e gera pensamentos como “ninguém se importa comigo”. É quando o silêncio da casa parece amplificar sentimentos de inutilidade. Quando prolongada, pode levar à tristeza profunda, isolamento e até comportamentos compensatórios, como o uso de álcool para aliviar a dor emocional. O problema é que a anestesia temporária frequentemente aumenta o sofrimento depois. Solitude, por outro lado, é uma experiência diferente.
Solitude é estar só sem se sentir abandonado. Psicologicamente, é a capacidade de usar o tempo sozinho para reflexão, reorganização interna e fortalecimento emocional. Espiritualmente, pode ser um tempo de reconexão com Deus, com a própria consciência ou com o significado da própria história. A diferença não está na quantidade de pessoas ao redor, mas na narrativa interna.
Imagine um senhor que vive sozinho após anos de convivência familiar intensa. Inicialmente ele pensa: “Minha vida perdeu o sentido.” Esse pensamento produz tristeza, retraimento e desesperança. Aos poucos, ele deixa de procurar atividades, evita ligações e passa mais tempo isolado. A realidade externa continua a mesma — ele mora sozinho — mas o significado atribuído à situação amplia o sofrimento.
Agora imagine que esse mesmo senhor começa a reformular seus pensamentos: “Minha fase mudou. Ainda tenho histórias, experiência e algo a contribuir.” A ausência de familiares não desaparece. Mas o pensamento deixa de ser destrutivo e passa a ser mais justo com sua própria trajetória. Esse movimento chama-se ressignificação. Ressignificar não é mentir para si mesmo. Não é negar a dor. Não é romantizar o sofrimento. Ressignificar é escolher uma interpretação que preserve a dignidade. Do ponto de vista espiritual, essa transformação também encontra respaldo. A Bíblia afirma: “Não te deixarei nem te abandonarei.” Independentemente da tradição religiosa, essa mensagem comunica algo profundamente humano: nossa existência não depende exclusivamente da presença física de outras pessoas. Existe valor intrínseco na vida humana. Existe significado que ultrapassa circunstâncias.
Quando a solidão é interpretada como prova de desvalor, ela corrói a autoestima. Quando é compreendida como uma fase que pode ser utilizada para crescimento interior, ela se aproxima da solitude. Isso não signi ca que o isolamento social deva ser aceito passivamente. A dimensão comunitária é essencial. Precisamos de vínculos, espaços de conversa, políticas públicas que incentivem integração e apoio emocional.
No entanto, enquanto trabalhamos para fortalecer essas redes externas, existe um trabalho interno possível. Entre o silêncio e a esperança existe uma escolha. Considere o pensamento: “Fui esquecido.” Ele pode ser transformado em: “Algumas pessoas se afastaram, mas minha história continua tendo valor.”
Considere: “Não sirvo mais para nada.” Pode tornar-se: “Minha fase mudou, mas minha experiência continua sendo importante.” Essa mudança altera a resposta emocional e sociológica do corpo. Reduz o peso interno e abre espaço para pequenas ações: participar de um grupo, telefonar para alguém, retomar um hobby, fortalecer a fé. Solidão adoece quando nos convence de que somos invisíveis. Solitude fortalece quando nos lembra que continuamos sendo alguém.
“Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá.” Salmo 27:10
Até a próxima
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


