
Boston, 17 de Fevereiro de 2026 —
Imagine o pavor um homem ou uma mulher que escapou por um triz da morte no próprio país: caçados por serem quem são, por amarem quem amam, por ousarem discordar de um ditador tirano, de um sistema que se autoproclama democracia, mas oprime seus cidadãos. Eles então atravessam oceanos, desertos, florestas, fronteiras mortais, chegam aos Estados Unidos e, após anos de audiências exaustivas, obtêm uma ordem judicial que grita proteção: “Não os devolvam ao inferno, pois lá serão torturados ou mortos”. Finalmente, pensam, há segurança, há futuro. Mas, no escuro da madrugada, algemas frias mordem os pulsos, olhos são vendados pelo medo, e são jogados em um avião sem qualquer explicação. Não sabem o destino. Só sabem que é um vazio qualquer, um país estranho na África, onde ninguém os conhece, ninguém os espera e ninguém os protegerá.
Na segunda-feira, 17 de fevereiro de 2026, mais um voo sigiloso pousou em Yaoundé trazendo cerca de oito migrantes — cidadãos de outras nações, sem laços culturais, familiares ou linguísticos com este país. Eles chegam em estado de choque profundo, como relatam os advogados locais que correm para atendê-los. O pânico é palpável: “Para onde eu vou agora? Quem me protege aqui?”.
O caso não é isolado. Em janeiro, nove pessoas — cinco mulheres e quatro homens, vindos de Zimbábue, Marrocos, Gana — foram despejados secretamente no mesmo território. A maioria carregava aquelas ordens judiciais de proteção, conquistadas por medo legítimo de tortura ou execução por causa de orientação sexual ou ativismo político. Advogados como Alma David, do Novo Legal Group nos EUA, e Joseph Awah Fru, em Camarões, chamam isso de “brecha legal” — um eufemismo frio para uma manobra cruel: o governo americano contorna as decisões judiciais enviando as pessoas para um “terceiro país” que pode, em seguida, devolvê-las ao lugar de onde fugiram. Nenhum deles tinha ficha criminal grave; no máximo, multas de trânsito. Dois já foram repatriados, mas os outros… só Deus sabe?
Camarões, sob o jugo eterno do tirano de Paul Biya — 93 anos, no poder desde 1982 —, entra na lista de pelo menos sete nações africanas (Ruanda, Uganda, Eswatini, Gana, Guiné Equatorial e outras) que assinaram acordos opacos com a administração Trump. Documentos vazados mostram que os EUA já gastaram ao menos 40 milhões de dólares para remover cerca de 300 migrantes para países sem qualquer conexão com eles — África, América Central, sabe-se lá onde mais. Há 47 negociações em andamento, muitas ainda sob sigilo absoluto.
O Departamento de Segurança Interna defende a prática como “aplicação estrita da lei” e “prioridade à segurança nacional”. Mas organizações de direitos humanos gritam o óbvio: isso é jogar vidas humanas em um abismo de detenção arbitrária, maus-tratos, devolução forçada para o perigo real. Em Eswatini, por exemplo, deportados com histórico criminal (já cumprido nos EUA) apodrecem em prisões de segurança máxima há meses, sem acusação formal, sem acesso a advogados.
Em Yaoundé, os advogados priorizam o apoio psicológico aos recém-chegados. Porque o que chega não é só corpo: é pavor puro, desespero absoluto. O sonho de refúgio virou pesadelo geopolítico. Uma roleta russa em que o prêmio é ficar vivo — ou o esquecimento em um continente distante, sem rede de apoio, sem esperança. E o mundo assiste, em silêncio cúmplice, enquanto políticas de imigração transformam pessoas em pacotes descartáveis.
Essa é a face mais sombria da “segurança nacional”: o medo não fica só nos deportados. Ele se espalha, contamina, lembra a todos que ninguém está imune quando o sistema decide que sua vida não vale o que você pensa.


