Em um daqueles episódios que revelam o abismo entre retórica e realidade na política americana, a governadora de Massachusetts, Maura Healey, enviou uma carta ao Departamento de Segurança Interna (DHS) exigindo detalhes minuciosos sobre todas as prisões realizadas pela Imigração e Alfândega (ICE) no estado desde janeiro de 2025. A demanda inclui identidades, bases legais, status de casos, locais de detenção e datas de audiências e dando um prazo de uma semana para que seu pedido seja atendido. Mas, como diria um observador atento, não é irônico que a mesma governadora que se recusa a compartilhar informações com as autoridades federais agora bata o pé pedindo reciprocidade? A resposta veio rápida e afiada da procuradora federal Leah Foley e do diretor interino da ICE, Todd Lyons. Em um comunicado postado no X, eles questionaram: “Não é curioso que a governadora que se recusa a compartilhar informações com as forças federais agora exija dados sobre prisões da ICE?”
Eles acusam Healey de usar sua posição para difamar a agência e intimidar empresas privadas, em vez de colaborar com a administração Trump para priorizar a segurança dos cidadãos americanos. E vão além: destacam que é crime federal estar ilegalmente nos EUA, algo que a governadora convenientemente omite em sua carta.Healey, em tom dramático, argumenta que as operações da ICE, como a “Patriot” em maio de 2025 (com 1.461 detenções) e a “Patriot 2.0” em setembro (1.406), visam não os “piores dos piores”, como alega a agência, mas membros de longa data da comunidade – e sim pais, cuidadores e trabalhadores cujas detenções repentinas deixam famílias em crise.
Ela cita que 46% dos detidos na primeira operação e 60% na segunda não tinham histórico criminal. Mas Lyons e Foley contra-argumentam: todos os detidos violavam leis de imigração, e a maioria tinha crimes graves cometidos nos EUA ou em seus países de origem. O problema? Jurisdições locais e estaduais, como as de Massachusetts, recusam-se a cooperar, liberando esses indivíduos de volta às ruas, forçando a ICE a fazer prisões “à solta” nas comunidades – um risco desnecessário para agentes e cidadãos. Aqui entra o cerne da crítica: a hipocrisia flagrante.
Enquanto Healey exige transparência federal, seu governo resiste a compartilhar dados sobre beneficiários do SNAP (programa de assistência alimentar) para combater fraudes, apontando dedos para as administrações Trump e Biden, e até para a COVID, pelos erros de US$ 364 milhões em pagamentos sob sua gestão. Pior: desde o lançamento de sua campanha de reeleição em janeiro, ela intensificou ações anti-ICE, assinando uma ordem executiva em fevereiro que proíbe novos acordos 287(g) – que permitem a deputados estaduais e locais atuarem como agentes de imigração – e veda prisões civis em partes não públicas de edifícios estaduais. Legisladores democratas no estado seguem o ritmo, avançando o “Protect Act” (H.5158), que visa limitar ainda mais a cooperação com a ICE, banindo o compartilhamento de informações sobre status imigratório ou datas de liberação de custódia. Mas o que isso significa na prática? A recusa em honrar “detainers” (pedidos de detenção) da ICE resulta na liberação de imigrantes com crimes graves, criando efeitos colaterais perigosos. A prefeita de Boston alega que a polícia local ignorou apenas 57 desses pedidos em 2025, mas a ICE rebate com 167 – um número que, maior ou menor, não diminui a gravidade da omissão.
Esses casos não são abstrações: tomemos, por exemplo, um hondurenho de 37 anos, preso em Fall River por estupro, agressão indecente a maior de 14 anos, intimidação de testemunha e sequestro de menor por parente. Apesar do detainer da ICE, autoridades locais o liberaram de volta à comunidade, forçando uma caçada posterior.
Outro: um brasileiro ilegal acusado de estupro e extorsão com ameaça de lesão, no condado de Barnstable. A corte ignorou dois detainers, violando até um acordo próprio, e o liberou duas vezes, exigindo que a ICE o recapturasse meses depois numa oeração que teve “efeitos colaterais”, ou seja, outros imigrantes que não tinham condenações e que estavam n mesmo local, também foram detidos.
Esses episódios não só expõem famílias a riscos – como Healey lamenta nas detenções da ICE –, mas também perpetuam um ciclo de impunidade que mina a confiança no sistema. No fundo, isso reflete uma divisão ideológica profunda: de um lado, uma governadora que pinta a ICE como “polícia secreta” movida por “supremacia branca e medo politizado”, reverberando vozes como a senadora estadual Liz Miranda; do outro, federais que veem nisso uma obstrução deliberada à remoção de “estrangeiros criminosos”. Em tempos de Trump de volta ao poder, Massachusetts posiciona-se como bastião de resistência, mas a que custo? Priorizar narrativas sobre segurança real pode custar caro – e não só em votos. Como sempre, a política joga com vidas, enquanto o eleitorado assiste, perguntando: quem realmente protege as comunidades?


