JUNOT
DENVER, 26 DE FEVEREIRO DE 2026 – Em uma teleconferência que, em outros tempos, seria mero protocolo burocrático, uma autoridade do Departamento de Segurança Interna (DHS) fez questão de repetir, com a paciência de quem explica o óbvio: agentes da Imigração e Alfândega (ICE) não estarão de plantão em locais de votação nas eleições de novembro. Heather Honey, a deputada assistente secretária para Integridade Eleitoral – cargo que soa quase poético em meio a tanta prosaica desconfiança –, foi taxativa: “Qualquer sugestão de presença da ICE nas urnas é simplesmente desinformação. Não vai acontecer.”
A declaração, confirmada por secretários de Estado democratas (Arizona e Oregon) e republicanos (Kentucky, via post no X), caiu como um bálsamo para quem já planejava estratégias de defesa contra o suposto “espantalho federal”. Porque, convenhamos, nada assusta mais um eleitorado sensível do que a possibilidade remota de um agente uniformizado dizer um “bom dia” e um documento. Os democratas, sempre atentos ao bem-estar cívico, já vinham debatendo há meses como reagir a uma eventual intimidação que poderia – quem sabe? – reduzir o comparecimento de certos cidadãos que, digamos, entraram no país durante a era Biden e agora torcem para que o voto continue sendo um exercício discreto, sem carimbo na saída.
Já os republicanos, com a serenidade de quem sabe que seus eleitores adoram lei e ordem (e não fogem dela), limitaram-se a um sorriso contido. “Nossos apoiadores não se intimidam com a ICE”, diriam. Afinal, deportar indocumentados é promessa de campanha, não surpresa de última hora. Se alguém se sente desconfortável com a mera ideia de fiscalização, talvez seja porque a fiscalização, em si, já incomoda.
A chamada reuniu FBI, Comissão Eleitoral, Serviço Postal e outras agências – rotina que, em 2026, ganhou contornos de novela política. Democratas questionaram cortes em segurança eleitoral, a caça a votos de não-cidadãos (já ilegal, mas sempre bom lembrar) e o fantasma de agentes federais nas proximidades das seções. O DHS não comentou além do prometido; a Casa Branca, por sua vez, já havia zombado do medo: “Ano passado, sem ICE, democratas venceram. Coincidência? Ou apenas competência?”
A Constituição, é claro, lembra que as eleições são assunto dos Estados, não de Washington. Mas em tempos de Trump 2.0, com promessas de “limpeza” na fronteira e na urna, o debate ganha tons quase literários: de um lado, o pavor de que o simples ato de votar vire uma checagem de status migratório; do outro, a indiferença serena de quem vê na lei o filtro mais natural do mundo. Ironia fina: imagine o eleitor sair de casa para cumprir o dever cívico e acabar, quem sabe, embarcado num voo de volta para um país qualquer. Coisas da vida, não é mesmo? O que para uns soa como ameaça à democracia, para outros não passa de democracia em plena ação.


