
Boston, 7 de janeiro de 2026 – Enquanto comunidades venezuelanas nos Estados Unidos celebram a captura de Nicolás Maduro em uma operação militar americana, líderes religiosos – especialmente da Igreja Católica – navegam por um terreno complexo de esperança, reconciliação e críticas históricas. A remoção do ex-líder chavista, acusado de violações de direitos humanos e narcotráfico, reacende debates sobre o posicionamento da Igreja em relação a regimes autoritários de esquerda na América Latina, contrastando com suas condenações mais veementes ao capitalismo liberal e às políticas dos EUA.
A notícia da captura de Maduro no último sábado gerou euforia em enclaves venezuelanos como Doral, na Flórida, apelidada de “Doralzuela” devido à sua grande população de exilados. Milhares saíram às ruas com bandeiras, e serviços religiosos no domingo incorporaram orações pela paz e justiça. O Rev. Israel Mago, pastor da Nossa Senhora de Guadalupe em Doral, exortou fiéis a rezarem por uma “transição justa e pacífica na Venezuela, para que a paz e a justiça reinem”. Já o Rev. Frank López, do Jesus Worship Center, foi mais efusivo, congratulando o povo venezuelano e agradecendo a Deus por figuras como o presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio, vendo na intervenção um passo para a “glória e liberdade” na América.
O arcebispo de Miami, Thomas Wenski, que atende à maior comunidade venezuelana nos EUA, descreveu um misto de alegria e ansiedade. “As pessoas estão felizes porque Maduro está fora, mas há muita incerteza”, disse Wenski em entrevista à Associated Press. Ele destacou o papel da Igreja Católica em promover a reconciliação em uma Venezuela polarizada, lembrando as “grandes tensões” entre os regimes de Hugo Chávez e Maduro com a Igreja. Exemplos incluem o confisco do passaporte do cardeal Baltazar Porras, arcebispo emérito de Caracas e crítico ferrenho do governo, e restrições a organizações católicas como a Cáritas.
Essa postura crítica da Igreja local na Venezuela contrasta com percepções mais amplas sobre o Vaticano. Sob o papa Francisco (2013-2025), a Santa Sé adotou uma abordagem diplomática cautelosa em relação a ditaduras de esquerda, priorizando mediação e diálogo em vez de condenações diretas e veementes. Francisco criticou genericamente “ditaduras que não servem e acabam mal”, mas evitou nomear líderes como Maduro ou Daniel Ortega (da Nicarágua) na maioria das ocasiões. No caso de Ortega, uma condenação mais forte veio tardia, em 2023, chamando o regime de “ditadura grosseira” e comparando-o a Hitler e Stalin – mas só após anos de perseguição intensa à Igreja, incluindo prisões de bispos e fechamento de igrejas.

Analistas apontam para uma assimetria notável: enquanto as críticas de Francisco ao capitalismo liberal foram centrais, intensas e constantes – chamando-o de “economia que mata”, “tirania invisível do mercado” e “idolatria do dinheiro” em encíclicas como Evangelii Gaudium (2013) e Fratelli Tutti (2020) –, as condenações a regimes esquerdistas foram raras, genéricas ou tardias. Essa diferença é atribuída à origem argentina do papa, influenciada pelo peronismo e pela Teologia da Libertação, que enfatiza a luta contra desigualdades sociais. Críticos, incluindo bispos venezuelanos e cardeais conservadores como Gerhard Müller, acusam o Vaticano de “silêncio cúmplice” com tiranos de esquerda, enquanto condena abertamente políticas americanas, como os planos de deportação de Trump, descritos como “desgraça” e “não cristãos”.
No contexto atual, com a presidente interina Delcy Rodríguez oferecendo colaboração aos EUA, Wenski expressa otimismo de que as condições para a Igreja melhorem. “A Igreja é talvez a única instituição independente na Venezuela que pode falar corajosamente”, afirmou. Em Filadélfia, comunidades venezuelanas se reuniram na Catedral Basílica de Santos Pedro e Paulo para orações, organizadas por grupos como a Casa de Venezuela. Arianne Bracho, vice-presidente da entidade, descreveu o evento como um espaço de “reconciliação e esperança”, apesar de sentimentos mistos sobre os bombardeios durante a operação.
A Conferência Episcopal Venezuelana e o Conselho Evangélico da Venezuela emitiram declarações iniciais pedindo calma e paciência, enquanto pastores da diáspora celebram abertamente a mudança. Com cerca de 8 milhões de venezuelanos fugindo desde 2014 – muitos agora nos EUA, enfrentando o fim de programas como o TPS (Status de Proteção Temporária) sob Trump –, a Igreja emerge como ponte para a diáspora ansiosa. No entanto, o legado de Francisco levanta questões: por que o Vaticano foi mais vocal contra o “capitalismo selvagem” dos EUA do que contra as mortes em prisões políticas na Venezuela ou Nicarágua?
Enquanto o papa Leo XIV, sucessor de Francisco, ainda não se pronunciou oficialmente sobre a captura de Maduro, a Igreja local continua a defender democracia e direitos humanos. Para muitos fiéis, como Bracho, que viu sua família espalhada pelo mundo devido à crise, o foco agora é na fé de que “isso vai acabar” – uma transição pacífica que una, em vez de dividir ainda mais uma nação dilacerada pela velha politica do nós contra eles.


