Por J. C. Junot – JSNews
Fort Worth, Texas – Em um episódio que beira o surreal, um juiz federal declarou anulação do júri no julgamento de nove acusados de integrar o que o governo Trump chama de “célula antifascista do Norte do Texas”. O motivo? Uma camiseta.
Não foi uma peça qualquer. A advogada MarQuetta Clayton, defensora de uma das rés, Maricela Rueda, usou, sob o blazer, uma camiseta com imagens de ícones do movimento pelos direitos civis: Shirley Chisholm e Martin Luther King Jr. O fato ocorreu durante a seleção do júri, na terça-feira. O juiz Mark Pittman, nomeado por Donald Trump, descobriu a vestimenta depois que Clayton já havia interrogado potenciais jurados por 22 minutos.
“I don’t know why in the world you would think that’s appropriate”, disse Pittman, segundo relatos do Texas Standard e do Fort Worth Star-Telegram. E completou: “This has to be a first in the history of American jurisprudence, I would think”. Traduzindo sem firulas: “Não sei por que diabos você achou isso apropriado”. E: “Isso deve ser uma estreia na história da jurisprudência americana, suponho”.
O magistrado não hesitou: declarou anulação do processo antes mesmo de o júri ser formado. A defesa protestou – os outros advogados se opuseram à medida –, mas Pittman foi irredutível. Marcou uma audiência para que Clayton explique por que não deve ser sancionada. E determinou que, na próxima terça-feira, um novo painel de 130 jurados potenciais seja trazido para recomeçar tudo do zero.
Durante a seleção inicial, com 75 candidatos a jurado, cerca de 20 declararam oposição aberta às políticas da ICE contra a imigração ilegal. Um deles disse: “Somos uma família de imigrantes” (dando a entender que o ataque seria um ato de justifica). O clima já era tenso. A camiseta, com sua simbologia explícita de luta por direitos civis, caiu como gasolina em brasa.
Pittman, visivelmente irritado, viu na roupa um risco de contaminação do júri – uma mensagem política subliminar em pleno tribunal. A decisão é dura, mas não inédita em casos politicamente carregados: juízes americanos têm histórico de zelar pela neutralidade absoluta na sala de audiências. Ainda assim, o episódio expõe o quanto o debate sobre imigração, ativismo de esquerda e repressão estatal polariza até o sistema judiciário.
A anulação não enterra o processo – ele será retomado. Mas revela o quanto uma simples camiseta pode paralisar a máquina da justiça federal em um dos casos mais simbólicos da era Trump contra o que o governo rotula de extremismo de esquerda. É o tipo de incidente que alimenta narrativas dos dois lados: para uns, prova de viés ideológico na defesa e alinhamento com o alegado ato terrorista; para outros, demonstração de intolerância autoritária no banco do juiz.
Enquanto isso, o tribunal de Fort Worth se prepara para tentar de novo. Resta saber se, da próxima vez, todos virão de blazer fechado – e sem surpresas por baixo. Porque, no Texas de 2026, até uma camiseta pode virar arma de guerra jurídica.
Update on Maricela Rueda: She called her husband and asked him to hide evidence. He must have been the person arrested because of a phone call. https://t.co/zDRG6cWIhJ
— DARevolution (@_DARevolution) July 11, 2025


