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Washington — O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que o governo americano pretende reexaminar sua relação com a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) assim que o conflito com o Irã for concluído. Segundo Rubio, a cooperação de alguns aliados europeus durante as operações militares no Oriente Médio tem sido “muito decepcionante”.
Em entrevistas à Fox News e à Al Jazeera nos últimos dias, Rubio criticou duramente países-membros da OTAN que negaram aos Estados Unidos o uso de bases militares e espaço aéreo para apoiar as ações contra o Irã. Ele citou explicitamente o caso da Espanha, que bloqueou o sobrevoo de aeronaves americanas, e mencionou restrições semelhantes de outros aliados.
“Se a OTAN significa apenas que os Estados Unidos defendem a Europa caso ela seja atacada, mas quando precisamos deles — nem que seja apenas para usar bases ou espaço aéreo — a resposta é ‘não’, então por que estamos na OTAN?”, questionou Rubio. Ele enfatizou que uma aliança “não pode ser uma via de mão única” e que precisa ser “mutuamente benéfica”.
O secretário de Estado, que no passado se posicionou como um dos defensores mais firmes da OTAN no Senado, admitiu que o episódio gerou questionamentos internos sobre o valor estratégico da aliança para os interesses americanos. “Infelizmente, após o fim deste conflito, teremos que reexaminar essa relação. Teremos que reavaliar o valor da OTAN e dessa aliança para o nosso país”, declarou.
Rubio ressaltou que a decisão final caberá ao presidente Donald Trump, mas sinalizou que o governo não aceitará mais uma dinâmica em que os EUA arcam com a maior parte dos custos de defesa da Europa sem reciprocidade quando Washington precisa de apoio.
As declarações ocorrem em meio à guerra em curso contra o Irã, iniciada após ataques conjuntos EUA-Israel no final de fevereiro de 2026, que incluíram operações para reabrir o Estreito de Ormuz — vital para o transporte global de petróleo. Países europeus demonstraram hesitação ou oposição aberta ao envolvimento americano no conflito, o que irritou a administração Trump.
Reflexos na América Latina e no Brasil
A sinalização de uma possível revisão profunda na relação com a OTAN reforça a estratégia “América Primeiro” da administração Trump, que prioriza o hemisfério ocidental e reduz o engajamento global em favor de interesses diretos dos EUA. Analistas veem nisso um fortalecimento da chamada “Trump Corollary” à Doutrina Monroe, que enfatiza a primazia americana na América Latina e maior foco em segurança hemisférica, combate ao narcotráfico, controle migratório e contenção da influência chinesa na região.
Para a América Latina como um todo, uma OTAN mais enfraquecida ou com menor compromisso americano pode acelerar o pivô dos EUA para o hemisfério. Isso se traduz em maior pressão sobre governos para alinhamento em temas como migração, drogas e minerais estratégicos, com iniciativas como o “Shield of the Americas” ganhando força entre líderes de direita. Países mais dependentes de segurança ou comércio com os EUA podem enfrentar dilemas entre autonomia regional (via CELAC ou Mercosul) e cooperação bilateral intensificada.
No Brasil, o impacto é particularmente relevante. O país, que não faz parte da OTAN e mantém uma política externa de não alinhamento automático, pode se beneficiar indiretamente de uma América Latina com maior atenção americana, especialmente em temas como comércio de commodities, infraestrutura e combate ao crime organizado transnacional. No entanto, uma postura mais unilateral de Washington também aumenta riscos de fricções bilaterais — como tarifas seletivas ou pressões políticas —, sobretudo em um ano eleitoral como 2026.
Especialistas apontam que o Brasil precisará calibrar sua diplomacia para preservar autonomia estratégica, equilibrando relações com os EUA, China e parceiros sul-americanos. Uma eventual redução do “guarda-chuva” de segurança europeu via OTAN pode, indiretamente, estimular o Brasil a aprofundar sua própria capacidade de defesa e liderança regional, ao mesmo tempo em que reforça a importância de fóruns multilaterais latino-americanos.
Até o momento, a Casa Branca não detalhou quais mudanças seriam implementadas na OTAN, mas a sinalização de Rubio já gera preocupação entre líderes europeus e debates sobre o futuro da aliança criada em 1949.


