
Boston, 16 de Fevereiro de 2026
A bravata da governadora Maura Healey contra o ICE — com direito a defesa explícita do desfinanciamento da agência federal — soa menos como política séria e mais como performance calculada para aplacar uma base eleitoral que já se sente confortável no santuário progressista de Massachusetts.
Em entrevista ao “On the Record” da WCVB, Healey disparou que o ICE possui “poder excessivo, autoridade sem freios, sem barreiras” e que “não age mais como agência de aplicação da lei”. Chegou a afirmar que a agência recebe mais verbas que todas as polícias estaduais e locais do país combinadas — uma comparação que impressiona na superfície, mas ignora que o ICE opera em escala nacional, com missões que vão de tráfico humano a contrabando, enquanto forças locais cuidam de jurisdições municipais. A governadora, ex-procuradora-geral que outrora colaborou com autoridades federais, agora pinta a agência como “não mais uma força policial”, mas como entidade que “coloca pessoas em risco”. A retórica é inflamada: “devastação”, “danos econômicos”, “loucuras” na fronteira com New Hampshire. Tudo embalado para soar indignação moral.
Mas o tom grandiloquente esbarra na realidade prática. Enquanto clama por cortes radicais no orçamento federal do ICE, Healey mantém medidas que, na prática, limitam a cooperação do estado, mas não extingue acordos existentes de 287(g) que ainda permitem uso de recursos estaduais em certas operações. Críticos à esquerda já apontam a incoerência: por que não romper de vez com qualquer parceria, se o ICE é tão “descontrolado”?
A menção à Copa do Mundo de 2026 é o ápice da encenação. Healey celebra o “enorme impulso econômico” das sete partidas em Massachusetts, mas alerta que a “mensagem” da administração federal afasta visitantes e empresas. Ora, se o problema é a imagem dos EUA no exterior, por que não criticar também o impacto das políticas de “santuário” que atraem fluxos migratórios irregulares e sobrecarregam serviços públicos locais? Em vez disso, a governadora se posiciona como defensora da “identidade acolhedora” do estado — enquanto o contribuinte de Massachusetts arca com bilhões em custos de abrigo, saúde e educação para imigrantes irregulares desde 2023.
A “demanda” a Kelly Ayotte para barrar o centro de detenção em Merrimack, New Hampshire, beira o absurdo federativo: uma governadora de outro estado “exigindo” que a colega republicana bloqueie projeto federal em território alheio. É intervencionismo de palco, sem poder real, mas com alto valor simbólico para quem quer ver resistência ao governo Trump.
No fundo, o discurso de Healey parece menos uma proposta concreta de reforma migratória e mais uma peça de teatro para o eleitorado democrata mais à esquerda — especialmente em ano eleitoral. Ela endurece o tom contra o ICE federal, mas evita medidas que realmente cortariam o cordão umbilical com políticas que, na visão de muitos, incentivam a imigração irregular. É fácil bradar “desfinanciar” quando o orçamento em jogo é o de Washington, não o de Beacon Hill. Difícil é explicar por que Massachusetts continua a ser polo de atração migratória enquanto reclama dos efeitos colaterais.
A bravata impressiona quem já concorda. Para quem observa de fora — e paga a conta —, soa como mais um capítulo de polarização barata: muito barulho, pouca substância e zero responsabilidade fiscal.


