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Washington, EUA – Desde o início do governo Donald Trump, em janeiro de 2025, o clima de medo provocado pela política de deportação em massa tem transformado drasticamente o dia a dia de creches e pré-escolas, especialmente aquelas que atendem comunidades latinas ou que contam com grande número de funcionários imigrantes.
Em Washington, numa pré-escola bilíngue localizada em bairro historicamente latino, professores passaram a ensaiar o que fazer caso agentes do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas) batessem à porta. Passeios ao parque, à biblioteca ou ao parquinho próximo – antes considerados uma extensão natural da sala de aula – foram suspensos. Em outubro, a tradicional parada do Mês da Herança Hispânica, em que pais imigrantes vestiam as crianças com trajes típicos e camisas de seleções de seus países de origem, foi cancelada por receio de atrair atenção indesejada.
“Tudo isso aconteceu antes mesmo de um professor ser preso dentro de uma pré-escola de imersão em espanhol em Chicago, em outubro”, relata a reportagem da Associated Press. O caso chocou o setor: a professora, que tinha permissão de trabalho válida, foi detida no vestíbulo da escola após fugir de uma perseguição de veículo. O motorista alvo da operação também foi preso dentro do prédio.
Setor infantil depende fortemente de imigrantes
Nos Estados Unidos, cerca de 20% dos profissionais de cuidados infantis nasceram fora do país, e outro quinto é de origem latina. Em cidades como Washington, Califórnia e Nova York, a proporção de trabalhadores estrangeiros chega a 40%, segundo o Centro para o Estudo do Emprego em Cuidados Infantis da Universidade da Califórnia em Berkeley.
A maioria desses profissionais está no país legalmente. Estudo do American Immigration Council de 2021 apontava que mais de 75% dos imigrantes que atuam na educação infantil tinham status legal. Muitas creches exigem verificação rigorosa de autorização de trabalho.
Ainda assim, o medo é generalizado. Em vez de passear com as crianças pelo bairro, os professores agora as levam em carrinhos pelos corredores do prédio. Uma sala de aula foi transformada em minibiblioteca após o fim da parceria com a biblioteca pública local.
Durante anos, creches e escolas eram consideradas “áreas sensíveis” e estavam fora do alcance rotineiro do ICE, justamente para proteger as crianças. Essa proteção foi eliminada logo após a posse de Trump. Hoje, agentes são orientados apenas a usar o “bom senso”.
Nos últimos meses, o governo também encerrou o Status de Proteção Temporária (TPS) para centenas de milhares de imigrantes – muitos deles fugidos de violência, pobreza ou desastres naturais. Só em novembro, 300 mil venezuelanos perderam a proteção.
Crianças também sentem o impacto
Em Portland, Oregon, uma unidade da rede Guidepost Montessori entrou em lockdown em julho após agentes do ICE tentarem prender um pai no estacionamento da escola, na frente de outras famílias. As crianças foram retiradas às pressas do parquinho enquanto professores colocavam música alta para abafar os gritos.
Nas semanas seguintes, os professores perceberam mais crises de choro, brigas e isolamento. Mais alunos passaram a procurar a “estação de regulação” – um cantinho com brinquedos sensoriais para acalmar. Amy Lomanto, diretora da unidade, observa: “O que aconteceu aqui mostra que até comunidades de maior renda não estão imunes. Esse nível de medo está se espalhando por toda a sociedade.”
Com a promessa de Trump de realizar “a maior deportação em massa da história” dos EUA, o setor de cuidados infantis – já sofrendo com escassez crônica de mão de obra – vive um momento de incerteza e trauma que atinge desde os profissionais até as crianças de colo.
Com informações Associated Press AP


