JUNOT (Boston, 13 de Março de 2026)
Em uma cidade de Massachusetts, semanas antes de dar à luz, uma jovem mãe parou de sair de casa. Na região, onde ocorreram diversas detenções por agentes de imigração, ela não conseguia deixar de imaginar cenas de mães separadas de seus bebês e crianças levadas para centros de detenção. O temor era tão intenso que, quando entrou em trabalho de parto, seu organismo havia reduzido drasticamente a produção de ocitocina, hormônio essencial para o parto e a amamentação. Níveis baixos desse hormônio estão associados a maior risco de depressão pós-parto e quadros graves de depressão.
As contrações começaram no meio da noite de janeiro. Sem muitas alternativas, ela recorreu à sua doula. O companheiro, cuja família também fora afetada por uma detenção recente, temia sair de casa para não ser preso. Foi a doula quem o levou ao hospital, onde ele pôde conhecer a filha recém-nascida, uma menina saudável. Por um dia, os três puderam ficar juntos.
A mãe teve alta sem visitas de outros familiares ou amigos. Do leito hospitalar, preocupava-se com o risco que qualquer visitante poderia correr. De volta ao pequeno apartamento, a solidão se aprofundou. Em vez da sensação de liberdade que muitas mães de primeira viagem experimentam ao deixar o hospital, ela trocou uma forma de isolamento por outra.
“Fiquei completamente sozinha com o bebê. Ninguém podia vir me ver por causa da imigração”, relatou. O medo se espalhou por toda a sua comunidade, afastando-a das pessoas que, em circunstâncias normais, ajudariam uma nova mãe a se adaptar à maternidade. “Tenho medo de que um dia me levem e eu deixe o bebê sozinha”, desabafou ela.
A intensificação das operações de imigração em diversas regiões do país enviou muitos imigrantes para dentro de suas casas. O receio de detenções inibiu não apenas o trabalho e os estudos, mas também a busca por cuidados médicos e o contato social. Embora dados federais indiquem que o ritmo de detenções esteja diminuindo e haja sinalização de uma mudança para ações mais seletivas, a vida ainda não voltou ao normal para muitas famílias.
O isolamento imposto pelo medo tem consequências especialmente graves para mulheres que acabaram de dar à luz. Um terço das mortes maternas ocorre no primeiro ano após o parto, a maioria evitável, decorrente de complicações físicas não tratadas ou de depressão pós-parto grave. Imigrantes enfrentam barreiras adicionais, como menor acesso a seguro saúde. Mulheres latinas apresentam risco duas vezes maior de desenvolver depressão pós-parto em comparação com mulheres brancas e recebem tratamento com menor frequência.
Os primeiros meses após o nascimento são desafiadores mesmo nas melhores condições: privação de sono, alterações hormonais, “baby blues”, recuperação física — que pode ser mais lenta em casos de cesariana — e o risco de complicações graves como hemorragia, pré-eclâmpsia ou infecções. Médicos ressaltam que, nesse período de alta vulnerabilidade, as novas mães precisam de suporte emocional, familiar e médico. No entanto, as operações de imigração tornaram esse apoio praticamente impossível para muitas.
Outra mãe viveu situação semelhante. Oito dias antes da cesariana marcada, seu marido foi detido. Durante dias, ela mal conseguia comer ou dormir, enquanto cuidava sozinha dos outros filhos. Ao chegar ao hospital, estava desidratada e com pressão arterial baixa. Após o nascimento do menino, passou quase duas semanas sem sair de casa, dependendo apenas dos filhos mais velhos para ajudar com o recém-nascido. Quando o marido finalmente retornou, após intervenção de um advogado, ele passou a primeira noite em claro, apenas observando o bebê.
“Ele disse que tinha medo de dormir, porque não conseguia acreditar que o filho estava ali”, contou ela.
Mesmo com a redução da presença de agentes nas ruas de Massachusetts, o sentimento de insegurança persiste. Famílias continuam evitando sair de casa, cancelando consultas médicas e hesitando em levar os filhos para creches ou escolas. Educadoras que atendem comunidades imigrantes relatam que o impacto sobre o senso de segurança será duradouro. Muitas mães expressam o mesmo temor: não querem viver constantemente com a angústia de serem separadas de seus filhos.
Para a jovem mãe, os dias se resumem agora às quatro paredes do apartamento. Ela acorda, amamenta, limpa a casa, prepara refeições com mantimentos entregues em casa e passa as tardes no sofá, com a filha no colo. O pequeno balcão é sua única janela para o mundo exterior. Até jogar o lixo fora se tornou uma atividade que inspira receio.
“Ultimamente, tenho me sentido sozinha”, desabafa ela, enquanto segura a menina.
Ela já preparou um plano de contingência, indicando uma amiga que poderia cuidar da filha caso seja deportada. Nos melhores dias, diz sentir-se feliz por ter a bebê. Nos demais, o estresse é constante — às vezes, ela reconhece, beirando a depressão.
Aos poucos, pequenas mudanças surgem. No final de março, ela conseguiu comparecer à primeira consulta médica fora de casa. Ainda assim, a incerteza permanece. Ela sonha em voltar a trabalhar, mas não sabe quando será seguro. Por enquanto, sua prioridade é ser forte pela filha.


