Eliana Pereira Ignacio – Olá, meus caros leitores, dando continuidade ao tema da semana passada sobre mudança, hoje quero falar sobre “Mudança Começa Onde a Dor Não É Mais Suportável”, uma reflexão profunda a partir da perspectiva da psicologia clínica. Se você já se perguntou por que algumas pessoas só tomam decisões transformadoras após uma crise, uma perda ou um colapso emocional, saiba que esse fenômeno é mais comum do que parece — e tem explicações sólidas do ponto de vista psíquico.
Na clínica psicológica, não é raro escutarmos frases como: “Cheguei no fundo do poço”, “Não dava mais pra continuar assim”, ou “Tive que perder tudo para perceber que precisava mudar”. Essas falas marcam o que chamamos de ponto de ruptura, um momento em que o sofrimento atinge tal intensidade que se torna impossível continuar nos mesmos padrões. É a dor como ponto de ruptura e impulso para a ação.
A psicóloga norte-americana Brené Brown (2012), ao estudar vulnerabilidade e vergonha, afirma que “o colapso pode ser o início da mudança, não o m. Ele nos obriga a olhar para aquilo que evitamos e a fazer escolhas mais autênticas.” Assim, a dor, embora indesejada, pode ser uma aliada no processo de autoconhecimento. Não é que a mudança dependa da dor, mas muitas vezes é a dor que nos acorda do torpor do conformismo.
Quando os mecanismos de negação, evitação ou racionalização já não dão conta de conter o desconforto, o psiquismo se vê forçado a romper com velhos padrões. É nesse momento que a pessoa, ainda fragilizada, começa a se abrir para novos caminhos. Embora o sofrimento não deva ser romantizado, ele pode ter uma função adaptativa. Viktor Frankl (2008), psiquiatra austríaco e fundador da logoterapia, disse: “Quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.” Frankl, sobrevivente do Holocausto, mostra que a dor pode ser catalisadora de sentido — especialmente quando se aprende a escutá-la em vez de apenas fugir dela. A função adaptativa do sofrimento.
Na prática clínica, percebemos que muitas pessoas só decidem romper com relacionamentos abusivos, largar vícios, mudar de carreira ou iniciar terapia quando a dor se torna maior do que o medo da mudança. Antes disso, mesmo diante do sofrimento, ainda prevalece a ilusão do controle ou da familiaridade. Afinal, como já dizia Freud, “o ser humano é mais movido pelo princípio do prazer do que pela razão.” Quando a dor se torna insuportável, a pessoa finalmente reconhece que precisa de ajuda e essa abertura, por mais dolorosa que seja, é o primeiro passo para a transformação real. Neste momento é possível ir do colapso à consciência, e reconhecer a importância do suporte clínico.
É fundamental, porém, que esse momento de ruptura não ocorra em isolamento. A dor pode levar à mudança, mas também pode levar à paralisia, culpa ou desorganização emocional se não for bem acompanhada. É aí que entra o papel do psicólogo ou terapeuta: dar estrutura à dor, ajudar o cliente a compreender sua origem, nomear seus afetos, elaborar o passado e construir novas narrativas.
O que era antes vivido como caos, passa a ganhar contornos e sentido. Segundo Carl Rogers (1961), um dos pioneiros da psicologia humanista, “a curiosa paradoxo é que quando me aceito como sou, então posso mudar.” Isso significa que a mudança real não ocorre por imposição externa, mas quando o indivíduo, acolhido em sua dor, começa a aceitar sua humanidade com compaixão. A mudança que nasce do sofrimento, portanto, deve ser cuidada, nutrida e guiada com responsabilidade. Terapeutas, não empurram clientes para o novo, mas andamos ao lado deles no processo de reconstrução, dando suporte à coragem que nasce quando não dá mais para continuar como antes.
As Escrituras nos mostram que é justamente nos momentos de maior aflição que muitos personagens bíblicos experimentam o consolo e a direção divina. O salmista declara: “Ao Senhor clamei na minha angústia, e Ele me respondeu” (Salmos 120:1). Esse versículo expressa a certeza de que, mesmo na dor mais profunda, não estamos sozinhos. A fé nos lembra que há propósito no sofrimento e que Deus pode usar a dor como instrumento de lapidação, cura e renovação. Jesus, ao consolar os aflitos, não negava o sofrimento, mas o redimensionava. Ele dizia: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16:33). Ou seja, a dor não é sinal de derrota, mas parte do caminho da superação e da vida plena.
Como terapeuta, posso afirmar: a dor não é o m da história. Às vezes, ela é o começo de uma nova versão de nós mesmos.
Se você está vivendo um momento difícil, lembre-se: há espaço para começar de novo. E você não precisa fazer isso sozinho. “Os que semeiam em lágrimas segarão com alegria.” (Salmos 126:5) Até a próxima semana!!!
Eliana Pereira Ignacio é psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com