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Uma forte nevasca, considerada a maior da temporada e uma das mais intensas a atingir Massachusetts nos últimos anos, cobriu grande parte da Nova Inglaterra — com destaque para o estado de Massachusetts — com neve pesada. Algumas regiões registraram acumulações superiores a 50 centímetros, e em pontos isolados os totais se aproximaram ou ultrapassaram 60 centímetros, provocando amplas interrupções no tráfego, falhas pontuais no fornecimento de energia e esforços intensos de remoção de neve por parte de equipes municipais e estaduais.
A tempestade, que se intensificou no fim de semana e prosseguiu até a segunda-feira, 26 de janeiro, levou à emissão de alertas de tempestade de inverno em toda a região. Na Grande Boston e no leste de Massachusetts, os acumulados variaram entre 38 e 61 centímetros em diversas localidades, enquanto áreas mais ao sul, como Cape Cod, registraram quantidades ligeiramente menores (cerca de 20 a 30 centímetros em alguns pontos). As equipes de limpeza trabalharam ininterruptamente para desobstruir as vias, à medida que a precipitação de neve diminuía ao longo do dia.
Em meio a esse episódio climático severo, um adiamento de dois anos na aplicação de uma política climática estadual sobre caminhões médios e pesados suscita questionamentos acerca da preparação de longo prazo para futuras nevasca. Em abril de 2025, o Departamento de Proteção Ambiental de Massachusetts (MassDEP) anunciou que não imporia as exigências de vendas mínimas de caminhões elétricos médios e pesados (MHD, na sigla em inglês) para os anos-modelo 2025 e 2026, no âmbito do programa Advanced Clean Trucks (ACT). Essa medida oferece flexibilidade a fabricantes e concessionárias, permitindo a continuidade do fornecimento de caminhões a diesel e a gasolina sem restrições, desde que cumpram outros elementos do programa.
O ACT, inspirado nas normas de emissões da Califórnia (adotadas por Massachusetts sob uma isenção federal hoje contestada), determina percentuais crescentes de caminhões de emissão zero nas vendas estaduais, alinhados ao objetivo maior de neutralidade carbônica até 2050. No entanto, o cenário federal mudou consideravelmente em 2025: o Congresso aprovou, e o presidente Trump sancionou, resoluções sob a Lei de Revisão Congressional para revogar as isenções da EPA concedidas à Califórnia, inclusive aquelas que viabilizavam o ACT. Essa decisão gerou litígios em tribunais federais, que discutem se tais isenções podem ser revogadas retroativamente dessa forma. Enquanto o processo judicial não se conclui, Massachusetts mantém o arcabouço do programa, mas exerce discrição na aplicação das regras.
Críticos do setor de transportes, entre eles a Associação de Transportadoras de Massachusetts (TAM), argumentam que a aceleração da eletrificação poderia complicar as operações de remoção de neve. O diretor-executivo Kevin Weeks destacou limitações atuais nos caminhões elétricos — como o desempenho das baterias em temperaturas extremas de frio, preocupações com autonomia durante longas jornadas de aragem e a insuficiência de infraestrutura de recarga —, sobretudo em aplicações exigentes como as de inverno.
“Especialmente em operações de neve, mas em praticamente todas as outras aplicações, os sistemas de bateria e a infraestrutura de recarga ainda apresentam limitações significativas”, observou Weeks em declarações anteriores. Ele reconhece a boa intenção do ACT, mas considera o cronograma irrealista sem avanços substanciais em tecnologia e suporte.
Caso as exigências do ACT sejam retomadas em 2027 (dependendo do desfecho judicial), o cumprimento das metas de vendas de veículos de emissão zero poderia restringir a disponibilidade de caminhões a diesel tradicionais, afetando municípios e frotas privadas que dependem de veículos comprovadamente confiáveis para aragem e resposta a emergências em tempestades como a atual.
O estado mantém o compromisso com a eletrificação de sua frota pública, conforme a Ordem Executiva 594 (assinada em 2021 pelo ex-governador republicano Charlie Baker), que prevê 100% de veículos de emissão zero até 2050. Metas intermediárias incluem 20% de veículos elétricos na frota estadual até 2030. Atualizações recentes indicam avanços principalmente em veículos leves (com o Escritório de Gestão de Veículos relatando mais de 10% de emissão zero nessa categoria até meados de 2025), mas os caminhões pesados para remoção de neve enfrentam desafios específicos. A frota estadual conta com milhares de caminhões, embora os dados públicos nem sempre diferenciem os destinados especificamente à aragem.
O MassDEP defende o programa ACT como essencial para reduzir poluentes nocivos, como material particulado e óxidos de nitrogênio, associados a doenças cardíacas e pulmonares, com impactos maiores em comunidades vulneráveis, incluindo crianças e idosos. Caminhões médios e pesados respondem por cerca de 25% das emissões de gases de efeito estufa relacionadas ao transporte.
Para mitigar resistências do setor, o MassDEP adiou os limites de vendas, mantendo, porém, outras obrigações, como relatórios trimestrais dos fabricantes sobre esforços de marketing de veículos de emissão zero, treinamento de concessionárias e implantação de estações de recarga. Algumas isenções ou considerações para veículos de remoção de neve (como caminhões basculantes usados como arados) já foram mencionadas em orientações relacionadas.
Enquanto Massachusetts remove a neve dessa grande tempestade, o equilíbrio entre metas climáticas ambiciosas, mudanças na política federal, disputas judiciais e necessidades práticas de inverno continua a alimentar debates sobre o futuro das frotas de caminhões e de gestão de neve no estado. Por ora, o adiamento proporciona alívio temporário, mas especialistas alertam que questões não resolvidas podem gerar dificuldades em invernos vindouros.


