Da Redação – O caso de Daniel Alves, um dos maiores ídolos do futebol brasileiro, começou em 31 de dezembro de 2022, quando uma jovem de 23 anos o acusou de estupro em uma boate de Barcelona.
O incidente, ocorrido no banheiro da área VIP, rapidamente ganhou as manchetes mundiais, marcando o início de um pesadelo para o ex-jogador do Barcelona e da seleção brasileira. Alves, então com 39 anos e atuando pelo Pumas, no México, foi preso em janeiro de 2023, sem direito a fiança, sob a alegação de risco de fuga devido à sua cidadania dupla (brasileira e espanhola) e sua condição financeira privilegiada. O que se seguiu foi um longo processo judicial que testou os limites da presunção de inocência e expôs as perdas devastadoras enfrentadas por um homem que, hoje, foi absolvido.
Em fevereiro de 2024, após um julgamento de três dias, Daniel Alves foi condenado a 4 anos e 6 meses de prisão por agressão sexual, sob a nova lei espanhola “Only Yes Means Yes”, que enfatiza o consentimento explícito. A acusação baseou-se no depoimento da jovem, corroborado por exames forenses que confirmaram a presença de seu DNA e sinais de resistência física, como uma lesão no joelho da denunciante. Alves, que inicialmente negou conhecer a mulher e depois admitiu uma relação consensual, viu sua versão ser rejeitada pelo tribunal de primeira instância. A sentença também incluiu uma indenização de 150 mil euros à vítima, paga com ajuda da família de Neymar, seu amigo próximo.
Mas essa condenação foi apenas o começo de uma batalha que culminaria em sua absolvição em 28 de março de 2025.
A jovem, cuja identidade foi mantida em sigilo, era uma mulher comum, sem histórico público que sugerisse busca por fama ou dinheiro. Ela recusou acordos financeiros antes do julgamento e manteve sua denúncia com firmeza, o que deu peso inicial à sua versão.
No entanto, o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha (TSJC) reverteu a condenação por unanimidade, apontando “lacunas, imprecisões e inconsistências” no depoimento dela.
Para Alves e seus defensores, isso reforçou a narrativa de que ele foi vítima de uma acusação que não se sustentou sob escrutínio rigoroso. Ele passou 14 meses preso, foi solto em março de 2024 sob fiança de 1 milhão de euros e, agora, está livre de qualquer restrição judicial.
As perdas de Daniel Alves, porém, vão além do tempo na cadeia. Sua carreira foi destruída — o Pumas rescindiu seu contrato imediatamente após a prisão, patrocinadores o abandonaram, e seus bens no Brasil foram bloqueados por um processo paralelo com sua ex-esposa. Ele perdeu a liberdade, a reputação e a chance de continuar no futebol, seja como jogador ou em outra função.
Aos 41 anos, o homem que conquistou 43 títulos, incluindo três Ligas dos Campeões, viu seu legado ser manchado por um caso que, no fim, não tinha provas suficientes para condená-lo.
E aqui surge a questão: e se fosse uma pessoa comum? Sem recursos para pagar advogados de elite ou arcar com uma fiança milionária, seria improvável que alguém sem a visibilidade e o dinheiro de Alves conseguisse reverter uma condenação inicial. O sistema judiciário, em muitos casos, favorece quem pode lutar com meios financeiros, enquanto o cidadão médio ficaria à mercê de uma sentença inicial, justa ou não.
Quem paga por isso agora? Alves não será indenizado pelas perdas materiais e emocionais. O Estado não compensa o tempo perdido, os contratos cancelados ou o estigma que permanece, mesmo após a absolvição.
O ex-jogador carrega cicatrizes profundas de um processo que, para ele, foi uma injustiça. O caso expõe uma verdade incômoda: a justiça pode absolver, mas não restaura o que foi tirado. Para Daniel Alves, a liberdade voltou, mas o custo pessoal foi imensurável.


