
– Em Massachusetts, onde o sonho americano se confunde com o medo, os imigrantes brasileiros jogam um jogo cruel de imitação e invisbilidade. A BBC News Brasil revelou o cotidiano de imigrantes que, sob a ameaça do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), tentam apagar quem são para sobreviver. Não basta evitar falar português é preciso trocar o jeito de vestir, o carro que dirige, até o adesivo na van de trabalho.
E esse drama não é só dos brasileiros. Mexicanos, haitianos, venezuelanos e outros imigrantes, de Los Angeles a Miami, imitam padrões “neutros” para não chamar a atenção e evitar o risco da deportação.
Em Massachusetts, onde mais 400 mil brasileiros vivem na jurisdição do Consulado de Boston, segundo dados de 2023, a construção civil é o epicentro dessa tensão. Um em cada quatro brasileiros no estado trabalha no setor, levantando paredes e assentando pisos sob o peso da incerteza. As vans, antes orgulhosas com nomes como “Silva Construções”, agora rodam sem identidade. Logotipos em português? Apagados. Sobrenomes latinos? Trocados por termos em inglês. Tudo para não atrair o ICE, que, no segundo mandato de Trump, intensificou sua caçada. Em maio, 1,5 mil detenções atingiram cidades como Worcester e Everett, metade sem antecedentes criminais, segundo o Boston Globe. A meta é clara: até 3 mil prisões por dia, contra as 660 diárias dos primeiros cem dias do governo.
Esse jogo cruza as fronteiras estaduais. Em Los Angeles, mexicanos evitam o espanhol em público, temendo que uma frase revele sua origem. Em Miami, haitianos, sob risco de perder o Status de Proteção Temporária evitam usar o idioma nativo em certo ambientes. Venezuelanos, enfrentando deportações para prisões como a CECOT, em El Salvador, escondem sotaques e bandeiras, preferindo bairros menos latinos. Até indianos e chineses, em Nova York, evitam festivais como o Ano Novo Lunar, segundo a DW, para não chamar atenção.
Esse tem sido um padrão global: imitar o comportamento americano, ficar invisível, para não ser pego. O custo é alto. Restaurantes brasileiros em Norwood, Massachusetts, amargam quedas de 30% no movimento, conforme relata a BBC, mesmo no verão. Lojas de produtos latinos, de biquínis a sabão, vendem só 15% do habitual, pior que na crise de 2008.
O medo trava o consumo, e os imigrantes, como os trabalhadores da construção, vivem com um olho na rua. No WhatsApp, alertas sobre blit Blitzen do ICE circulam como alarmes, enquanto famílias correm ao Consulado de Boston por passaportes, temendo separações. Na Flórida, empresas contratam motoristas legalizados para vans, um custo extra para evitar detenções em estradas rumo a Miami. A busca pela invisibilidade tem raízes profundas, Haitianos, venezuelanos, equatorianos – todos evitam o máximo possível usar roupas que ressalta uma nacionalidade diferente. O Instituto Diáspora Brasil destaca que brasileiros revitalizam cidades, mas se sentem caçados. O ICE avança sobre a comunidade e o numero de brasileiros detidos hoje nos USA é incerto. Em “cidades santuário” de Massachusetts, a proteção é frágil; na Flórida, a colaboração com autoridades federais aperta o cerco. Para brasileiros e imigrantes de outras nacionalidades, viver é passar desapercebido, imitar, ser invisível: menos sotaque, menos cultura, menos vida. Para o indocumentado nos dias de hoje, sobreviver é fingir ser outro.
Com informações BBC Brasil