JUNOT
Neste Domingo de Ramos de 2026, o Papa Leão XIV ergueu a voz na Praça de São Pedro e declarou, citando Isaías 1:15: “Ainda que multipliquem as vossas orações, eu não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue”. A advertência era dirigida aos líderes que travam guerras. O alvo implícito era claro: a ação militar contra o regime iraniano.
Ninguém que ama a justiça pode defender a violência gratuita. Mas o silêncio que acompanhou essa denúncia revela uma dupla moral perigosa e mortal. Enquanto o Papa condenou com veemência os bombardeios externos, permaneceu praticamente mudo sobre a opressão sistemática dentro do Irã: as mulheres espancadas e presas pela polícia moral, os manifestantes executados, os cristãos, bahá’ís e sunitas perseguidos, a falta de liberdade e o financiamento de grupos terroristas.
Aqui está o cerne da questão: o silêncio ou a inação diante de regimes opressores pode, na prática, permitir que a violência e a injustiça continuem matando mais pessoas ao longo do tempo. A Igreja Católica tem uma longa tradição de “paz a qualquer preço”, mesmo que isso custe a vida de inocentes — inclusive não cristãos. Essa paz não é a paz de Cristo; é uma paz que adormece a consciência enquanto o mal continua a agir.
O exemplo de Dietrich Bonhoeffer e a resistência cristã
Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano e teólogo alemão, compreendeu isso com a própria vida. Quando Hitler subiu ao poder, Bonhoeffer não se contentou com orações piedosas ou com a “graça barata”. Ele denunciou abertamente o nazismo, fundou um seminário clandestino para formar pastores resistentes, ajudou judeus a fugirem e participou ativamente da conspiração para assassinar Hitler.
Bonhoeffer escreveu: “Não basta apenas colocar ataduras nas vítimas que jazem sob as rodas da injustiça; é preciso enfiar uma vara nas rodas do carro”. Ele foi preso, torturado e enforcado em Flossenbürg em 9 de abril de 1945, apenas duas semanas antes da libertação do campo. Suas últimas palavras foram: “Este é o fim — mas para mim, o começo”.
Bonhoeffer não era um pacifista romântico. Era um discípulo de Cristo que entendeu que, em certos momentos, a verdadeira obediência exige ação concreta contra o mal institucionalizado.
Outros casos de silêncio papal
Infelizmente, o caso atual não é isolado. A história registra outros momentos em que o Vaticano optou pelo silêncio ou por uma neutralidade excessiva diante de atrocidades. O mais conhecido é o do Papa Pio XII durante o Holocausto: apesar de ter conhecimento das deportações e do extermínio sistemático de judeus, ele nunca condenou publicamente o regime nazista com a força que o momento exigia. Padrões semelhantes apareceram em relação a regimes comunistas na Europa Oriental e, mais recentemente, na abordagem cautelosa do Vaticano com a China, onde a perseguição a cristãos e uigures continua sem uma condenação clara e firme.
Esses episódios mostram que a “paz a qualquer preço” não é novidade. É uma tentação recorrente: preferir a diplomacia silenciosa à confrontação moral, mesmo quando inocentes pagam o preço mais alto.
Deus é soberano. Ele pode usar tanto pessoas piedosas quanto ímpias — inclusive líderes políticos questionáveis — para realizar Sua vontade. Mas isso não significa que Ele aprove a maldade ou a impiedade da pessoa. No final, cada um prestará contas pelo que fez.
O caso de Nabucodonosor é um dos exemplos mais fortes disso. Deus o chamou explicitamente de “meu servo” (Jeremias 25:9; 27:6; 43:10). Ele foi usado como instrumento de juízo divino contra Judá, que havia se afastado de Deus por décadas, praticando idolatria, injustiça e derramamento de sangue inocente. Nabucodonosor destruiu Jerusalém e o Templo em 586 a.C. e levou o povo para o exílio — tudo isso aconteceu dentro do plano de Deus como disciplina corretiva. No entanto, o próprio Nabucodonosor foi depois humilhado e julgado (Daniel 4).
Da mesma forma, Ciro, rei da Pérsia — também pagão — foi chamado de “ungido” de Deus (Isaías 45:1) porque libertaria os judeus do exílio babilônico. Os assírios foram usados para punir o reino do Norte de Israel, mas depois foram julgados por sua própria arrogância e crueldade excessiva (Isaías 10:5-19). No Novo Testamento, Paulo afirma que as autoridades governantes (muitas delas pagãs e opressoras no Império Romano) são “ministros de Deus” para punir o mal (Romanos 13:1-4), embora nem todas fossem piedosas.
Tiago 4:17 avisa: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado”. Provérbios 24:11-12 pergunta: “Livra os que estão sendo levados à morte… se disseres: ‘Não o sabíamos’, não o perceberá aquele que pesa os corações?”
A citação seletiva de Isaías 1:15 pelo Papa Leão XIV é apenas uma das muitas que líderes religiosos usam para manejar a fé daqueles que desconhecem as Escrituras nas quais o cristianismo se funda. Ela é arrancada de seu contexto e transformada em arma política unilateral.
Não podemos continuar pregando uma paz que protege o opressor e abandona o oprimido. O sangue dos inocentes clama da terra (Gênesis 4:10). O Deus da Bíblia não é um Deus de silêncio confortável, mas de justiça ardente. Ele usou Nabucodonosor para juízo e depois o julgou. Usará também aqueles que hoje se calam enquanto o mal avança.
Que a Igreja de Cristo abandone de uma vez por todas a “indiferença e a inação da paz a qualquer preço” e recupere a voz profética. Porque, no dia do juízo, não será perguntado apenas aos tiranos o que fizeram com os inocentes — mas também àqueles que, podendo falar, escolheram o silêncio.
Que Deus nos livre de sermos contados entre os mudos.
Um cristão que se recusa a trocar a verdade bíblica por uma paz barata


